Brasil

A indicação de Bolsonaro ao STF é um bom sinal

O presidente Jair Bolsonaro surpreendeu ao anunciar que irá indicar o juiz do TRF-1 Kássio Nunes Marques para o STF, na vaga do ministro Celso de Mello, que se aposentará em 13 de Outubro. Vários eram os nomes ventilados e a promessa muitas vezes repetida de indicar alguém “terrivelmente evangélico” e que fosse alinhado com os valores do governo. Porém, nada disso aconteceu. A indicação de Kássio Marques se deu por intermédio do presidente do Senado, Davi Alcolumbre (DEM), que arranjou um encontro do presidente e do juiz com Gilmar Mendes e Dias Toffoli. 

É importante elencar esses acontecimentos para mostrar que a escolha de Bolsonaro é um bom sinal, pois se deu após negociações com o mundo político e com a ala contrária à  Lava-Jato no STF. Meses atrás seríamos incapazes de imaginar que a indicação de Bolsonaro se daria dessa forma, mas isso faz parte de um contexto maior que vem se fortalecendo. Após radicalizar ao extremo no começo da pandemia, investindo contra o Congresso, STF, governadores e prefeitos, o presidente viu o cerco se fechar contra ele e o início de uma preparação para retirá-lo do poder. No meio das investigações criminais contra ele no STF e TSE, Queiroz finalmente foi encontrado e preso e nos bastidores do Congresso já se discutia abertamente a possibilidade de impeachment. O presidente, em reunião com aliados mais próximos, cogitou intervir com o uso da força no STF, mas sofreu resistência dos militares. Acuado e sem opções, teve que mudar de estratégia: chamou o Centrão para o governo e evitou radicalizar em público. Essas atitudes abaixaram o fogo contra ele no Congresso e no STF e lhe deu certa tranquilidade para governar, dando margem inclusive para a diminuição da sua rejeição e aumento da sua aprovação. 

A indicação de Kássio ao STF é sinal de um governo enquadrado pelas instituições e que negocia com os outros Poderes para se manter, desagradando a sua base de apoiadores mais radical e a trupe de autoritários da Lava-Jato, que manifestaram seu descontentamento nas redes. Bolsonaro não é e nunca será um democrata, mas está aprendendo que para se manter no poder terá que governar para muito além dos fanáticos e delirantes que o cercam. Está sendo engolido, que continue. 

Valdeci Rodrigues

Nordestino da Paraíba, vivente no Ceará. Graduando em Ciências Sociais pela UFC(Universidade Federal do Ceará), desenvolve trabalhos na área de Ciência Política e Educação.

Artigos relacionados

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Botão Voltar ao topo