Brasil

JPD entrevista William De Lucca

De Lucca é jornalista e especialista em marketing digital, ativista digital, LGBT+ e de Direitos Humanos.

Ele é candidato a vereador em São Paulo.

 

JPD-Nós vivemos há alguns meses uma pandemia; o momento mais difícil da nossa geração. Como tem sido lidar com isso?

De Lucca: Isso tem provocado sentimentos muito diferentes. Como o isoamento ou distanciamento social são fatores importantes para não contrairmos a Covid-19, muitas vezes ficamos tão restritos a esse novo espaço que, em alguns momentos, até achamos que falhamos como humanidade. Afinal, com tanto conhecimento acumulado não conseguimos enfrentar um bichinho que nem vemos? Outro ponto é que temos a oportunidade de elaborar melhor o que queremos individualmente e coletivamente, sem os atropelos do dia-a-dia. A gente consegue dar um respiro e ver que é possível sermos melhores e que devemos cuidar de nós e de todas as pessoas ao nosso redor. Isto significa olhar e agir com carinho em relação à natureza e a todos os seres do planeta.

JPD-Na sua opinião o momento que vivemos interfere, de alguma forma, no resultado das próximas eleições?

DL: Sem dúvida. Em qualquer eleição pesa muito o momento recente, aquilo que está nos incomodando ou estimulando. Um ponto fundamental que a gente está vivenciando é a urgente necessidade de sermos empáticos. Quando a gente se coloca no lugar do outro, quando a gente ouve e pensa conforme o sentimento de outros grupos ou pessoas temos a possibilidade de mudar, de transformar aquilo que considera que não esteja certo. Por exemplo, a pandemia deixou ainda mais clara uma postura arrogante, excludente, violenta e genocida do ocupante da cadeira de presidente da República. Embora tenha pessoas que concordam com isso, o que chega a ser incrível, há um outro lado que discorda e age contrariamente. É um lado que defende a Democracia, as liberdades coletivas e individuais, o conhecimento, a ciência, as artes. Essa é minha turma, é com elas e eles que eu vou. Isso já está refletindo nesta campanha eleitoral. Pode levar algum tempo, mas o desrespeito ao próximo, se não acabar, vai diminuir muito. É impossível uma sociedade viver em conflito permanente. Eu acredito no amor, no afeto como forma de convivência entre as pessoas.

JPD-Como você avalia o combate ao COVID-19 em São Paulo?

DL: Mal, muito mal. A gente precisa dar, ao menos, um contexto de país. A partir do “desgoverno” federal, tudo começou errado. Desprezo por todas as determinaçōes sanitárias, campanha deliberada por um rápido contágio em massa com o intuito de acelerar a volta da atividade econômica, não realização de testes em massa, menosprezo absoluto pela vida das brasileiras e brasileiros. No estado e na cidade de São Paulo, os tucanos Doria e Covas optaram por, aparentemente, se contraporem à Brasília muito mais ou totalmente por estratégia política. É preciso lembrar que desde o surgimento dos casos, no final de fevereiro, Doria, com Covas a tiracolo, fazia muita entrevista coletiva e sugeria, propunha, aconselhava medidas básicas preventivas. Não eram assertivos, não foram deliberativos. E a pandemia já estava instalada no País. No fundo, os dois foram adiando as medidas necessárias muito mais preocupados com os reflexos da perda de arrecadação resultado da inevitável queda da atividade econômica.

JPD-Como você vê o atual cenário político da cidade de São Paulo?

DL: Eu tenho uma sensação de que o Bruno Covas não estava a fim de ser prefeito, ao menos naquele momento. Ele estava lá, muito bem instalado como vice, cumprindo seu papel burocrático. Aí, o Doria consegue afastar do poder tucano gente como Alckmin e Serra, que com Mário Covas, avô de Bruno, comandaram o PSDB paulista por décadas, abandona a Prefeitura e vai disputar o Governo do Estado. Lembrei isto pra perguntar: que lugar pode ser bom de se viver se é utilizado como rampa de lançamento político? O que esperar de um ‘governo’ que vê a cidade como um mapa de guerra – lembram daquele jogo war? – só pra conquistar espaços e não pra transformar esse espaço num lugar bom de se viver? As pessoas também estão percebendo que candidatos como Russomanno não têm nenhuma identidade com a Capital. Esse, principalmente, se mostra um oportunista desde sempre. Quem vive e mora aqui sabe muito bem que o PT, meu partido, tem uma história de realizações, de olhar e fazer atividades voltadas pra maior parte da população que, normalmente, é excluída das propostas de Governo. Nós temos o sentimento e a experiência de atuar pra fazer uma cidade inclusiva, que respeita todas e todos, sem discriminação.

JPD-Sobre a criação da Frente Ampla, em defesa da democracia, com membros da esquerda e também da direita, qual a importância desse movimento?

DL: Chegamos a tal ponto em nosso país que a lógica está até simples: os partidos que apoiam o ocupante da cadeira de presidente da República não estão nem aí pra Democracia. Esses querem o poder pelo poder, querem satisfazer seus objetivos pessoais e nada mais. Esses podemos chamar de direita e com eles não há acordo possível. A possibilidade de diálogo está com as siglas e grupos que querem a soberania do País de volta, a retomada e avanço dos direitos trabalhistas que foram tirados em nome de uma ‘reforma’, o restabelecimento e aprimoramento do diálogo político respeitoso, de propostas com pé e cabeça, e o entendimento que o Estado é laico, onde cada uma e cada um pode exercer livremente sua fé, crença, religião sem misturar com o fazer político. Então, esse último grupo podemos chamar de esquerda, progressistas, enfim. É nesse barco que acreditamos. Por isto fica claro que essa ‘frente’ tem cara, coração e nela não cabem neo-nazi-fascistas.

JPD– existe uma real ameaça à democracia?

DL:Sem dúvida, a Democracia está sendo claramente atacada desde o golpe parlamentar que tirou a presidenta Dilma do poder. Desde quando a ‘Vaza Jato’ inventou a prisão do Presidente Lula que o arrancou da disputa eleitoral de 2018. Desde quando o ‘presidente’ impôs o teto de gastos orçamentários para as áreas sociais, quando trata adversários como inimigos a serem abatidos, quando ignora a ciência, as artes e a cultura, quando contribui decisivamente para a morte de milhares de brasileiras e brasileiros pela Covid-19 ao negar ações de enfrentamento da doença. Não estamos em uma Democracia quando essa figura desprezível estimula o preconceito contra negros, mulheres, LGBT+ ao tratá-los como coisas dispensáveis. Não há Democracia quando quem deveria ser o chefe da nação interfere nas ações da Polícia Federal para intimidar opositores e quando tenta esconder a ação violenta e criminosa de pessoas que praticam corrupção, como o filho dele, Flávio, hoje senador, no caso das ‘rachadinhas’ e do recebimento de depósitos na conta de sua mulher, a primeira dama.

JPD– Você acha possível o impeachment do Bolsonaro?

DL: Possível, sim. Provável, nem tanto. Motivos existem e o presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia, está sentado na meia centena de pedidos que recebeu. Se fala muito no ‘clima’ para tratar do impedimento, que as circunstâncias não são as adequadas. Balela. O ‘presidente’ da República tem o apoio da maioria dos parlamentares, os do chamado Centrão, na base da distribuição indiscriminada de cargos. Isto se chama compra de consciência e, mais dia, menos dia, a conta chegará. Mas isto não isenta os partidos de oposição, os movimentos sociais de se manifestarem, cobrarem. Pena que esse exercício está muito limitado em razão da pandemia, já que muitas pessoas estão conseguindo evitar sair de suas casas. De qualquer forma, o momento é grave.

JPD-Quando surgiu o desejo de ser candidato a vereador de São Paulo?

DL: Foi um processo natural. Já trabalhei em gestões públicas, sempre militei pelos direitos humanos e combate às opressões, contra LGBTfobia no esporte – o que já me rendeu algumas ameaças de morte, inclusive. Quando voltei a São Paulo, em 2015, comecei também a canalizar energia para o direito dos trabalhadores, atuando no Sindicato dos Bancários. Então foi um movimento de nortear este acúmulo de militância que eu tive ao longo da minha vida para ocupar um espaço na Câmara de Vereadores.

JPD– Porque o PT?

DL: Me filiei ao PT em 2018, pelas mãos do presidente Lula, dias antes de sua prisão injusta. Desde a adolescência, sempre fui muito questionador – e não vejo possibilidade para uma pessoa LGBT questionadora diferente de ser progressista e de esquerda. E o PT foi o partido que mais me trouxe afinidades por sua trajetória e pautas apresentadas à sociedade.

JPD– Você é um dos criadores do Palmeiras Livre, um coletivo LGBT+ que luta contra a homofobia nos estádios. Como você pretende levar essa pauta à Câmara Municipal de São Paulo?

DL: O fato de eu ser candidato, o fato de eu poder ser eleito – assim espero -, já são fatores que reforçam a discussão da pauta LGBT+ seja nos estádios, nas ruas, escolas ou na política. Principalmente por essa demanda que chegamos até aqui. É por ela que continuamos. E digo continuamos porque esse trabalho vem sendo feito desde sempre, não somente por mim. Tem muita gente que se identifica, apoia, participa da maneira que pode. Somos muito gratos por isto. Na Câmara Municipal, vamos nos juntar àquelas e àqueles que querem, de verdade, fazer de São Paulo uma cidade inclusiva, que respeite as diferenças, que seja plural e entenda que a liberdade de expressão é o único caminho para a construção de algo positivo. E, claro, tudo isto feito com carinho, afeto e empatia.

JPD– Quais são as suas principais propostas?

DL: Nosso gabinete será, verdadeiramente, de portas abertas. Temos todo a disposição e interesse em saber, sempre, o que aflige as pessoas e como podemos encaminhar soluções. Uma vez por semana, estaremos num lugar da cidade para também fazer esse trabalho, ouvir, entender e solucionar. Vamos cobrar do futuro prefeito Jilmar Tatto, nosso atual candidato, a ampliação do atendimento específico da população LGBT+ via postos de acolhimento com serviços de Saúde, Emprego e Jurídico. Meu mandato vai atuar para que nossa rede de ensino intensifique a discussão da temática LGBT+, inclusive com a inserção de literatura específica na grade curricular e em bibliotecas públicas. Outra proposta é que o Poder Público estimule a criação do Largo da Diversidade, no Arouche, que terá tanto uma função de combate ao preconceito quanto o desenvolvimento econômico. Será um espaço com atividades culturais e comerciais que irāo transformar a região, a exemplo do que ocorre no Castro, um bairro de São Francisco, nos Estados Unidos. Em linhas gerais, meu mandato será o de defender e procurar saídas para as excluídas e excluídos da nossa cidade. Este é um momento especial para isto, principalmente porque o comportamento reacionário, para dizer o mínimo, está procurando sair da toca.

JPD-Quais mudanças são necessárias?

DL: Tudo parte da informação, do debate, da troca de informações sobre a necessidade urgente das pessoas se respeitarem. É inadmissível que em 2020 tenhamos de tratar de assuntos como a violência contra o ser humano só porque ele tem suas opções pessoais de vida. Querer controlar os sentimentos, os pensamentos, as preferências ou orientações de alguém pelo simples exercício de poder é abominável e desprezível. E mais do que denunciar isso, temos de enfrentar, buscar o diálogo na sociedade. Esta é a grande tarefa e me sinto feliz em estarmos levando essa mensagem.

JPD-Deixe um recado para os leitores do JPD.

WL: Sempre e para tudo precisamos das e dos jovens. É por meio de vocês, da gente, que conseguiremos fazer do nosso local de vivência, da cidade, do país, do mundo, um lugar bom de conviver. A busca disso, mais do que palavras, tem de ser como um mantra, uma oração diária um pensamento permanente. Porque, se não for assim, nossa existência não será nem ruim, ela desaparecerá. E falo às e aos jovens de cabeça, de ideias, posturas, com vontade de transformar, de fazer sempre algo bom. Estejamos sempre alertas, mas também carinhosos uns com ou outros. Fiquem bem. Um beijo.

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