Economia

O Abecedário da recuperação econômica

Você já deve ter ouvido falar em algum meio de comunicação que a recuperação da economia mundial e brasileira se dará em formato de “V”. Mas, não é muito difícil encontrar análises em que o diagnóstico é de crescimento em formato de “W”, “U” ou até mesmo “K”. No meio desse verdadeiro “Abecedário” da recuperação econômica há apenas uma certeza: independente do formato da curva, uma recuperação mais robusta da economia global exigirá a manutenção das medidas de estímulo econômico adotadas nos últimos meses.

O cenário mais otimista de recuperação da economia mundial pós-pandemia é aquele onde a curva de crescimento se daria em formato de “V”. Nesse cenário, após uma queda rápida da atividade econômica, acontece uma alta na mesma intensidade. Há também alguns analistas que acreditam na possibilidade de crescimento econômico em formato de “W”, onde a atividade econômica alternaria fases de crescimento e fases de contração, até que a economia conseguisse retornar para taxas de crescimento similares as que tinha antes da crise.

Em um cenário mais pessimista, a dinâmica da recuperação se daria em formato de “L”, onde, após uma queda brusca, não há possibilidade de se prever quando se daria a recuperação econômica. Ou ainda, crescimento econômico em “U”: Esse cenário indica que, depois de uma queda da atividade econômica, haveria um período de abatimento da economia, seguido de uma retomada econômica mais robusta.

Apoiado na divulgação de alguns indicadores antecedentes positivos para o terceiro trimestre de 2020, o Ministro da economia, Paulo Guedes, já mencionou em diversas ocasiões que a economia brasileira está em processo de recuperação em “V”.

Cabe lembrar entretanto, que, embora o resultado do terceiro trimestre – quando é esperada forte alta do PIB, após queda de 9,7% no segundo trimestre – possa dar essa impressão de rápida retomada, é bom não perder de vista que no primeiro trimestre de 2020, produzíamos 6% a menos que no primeiro trimestre de 2014.

O bom desempenho de alguns indicadores de atividade econômica refletem principalmente o afrouxamento das medidas de isolamento social e os efeitos positivos sobre o consumo privado decorrentes das políticas de garantia de renda, como o auxílio emergencial e o seguro-desemprego.

O grande teste de robustez da economia brasileira, tão aclamada pelo ministro, se dará a partir do quarto trimestre deste ano, com o início da retirada dos estímulos fiscais de combate à pandemia no Brasil.

Até lá, como se sabe, a economia brasileira contará com auxílio emergencial em valor reduzido pela metade, e também com o provável esgotamento dos recursos sacados do FGTS, do seguro desemprego e do adiantamento do 13º salário. No âmbito empresarial, muitas empresas de pequeno porte já fecharam as portas diante da baixa capacidade financeira de suportar a crise. Outras tantas, logo vão começar a ter que cumprir os compromissos firmados durante a pandemia com relação aos seus pedidos de financiamento para capital de giro e para reduzir jornada de trabalho ou suspender contratos de trabalho.

Internacionalmente, a melhor fase da recuperação econômica global parece já ter ficado para trás. Segundo o JPMorgan Chase, as medidas de estímulo fiscal acrescentaram 3,7 pontos percentuais de crescimento ao PIB global neste ano. Mas, economistas do banco acreditam que as autoridades irão repetir os erros cometidos após a crise financeira de 2008, com o retorno prematuro à austeridade. Com isso, o impulso deste ano poderia se transformar em um entrave fiscal de 2,4 pontos percentuais em 2021.

Na Europa, o fundo de recuperação histórico de 1,8 trilhão de euros agora enfrenta possíveis atrasos.

Nos EUA, embora a recuperação tenha ocorrido já em maio, as perdas de empregos estão durando muito mais do que o esperado. Em agosto ainda havia 7,4 milhões de desempregados a mais do que em fevereiro, segundo dados oficiais do governo americano. Além disso, economistas têm cortado previsões de crescimento para o quarto trimestre, porque temem que os esforços para aprovar outro projeto de lei de gastos do coronavírus emperrem no Congresso.

Na maioria dos países latino-americanos, porém, uma recuperação imediata parece mais improvável. O FMI (Fundo Monetário Internacional) prevê uma queda do PIB regional de 9,4% neste ano, e alguma recuperação apenas em 2021. Já a Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (CEPAL) estima que 29 milhões de latino-americanos cairão novamente abaixo da linha da pobreza em 2020. O think tank Economist Intelligence Unit (EIU) também prevê que os países que poderiam recuperar seu nível de crescimento pré-pandêmico até o final de 2022 são Colômbia, Chile, Peru, Paraguai, Uruguai, República Dominicana, Costa Rica e Panamá.

Outros fatores que reduzem a esperança de uma recuperação em forma de “V” são a ausência de uma vacina e a propagação ainda acelerada do vírus em algumas regiões. Governantes de todo o mundo estão cientes do forte impacto que um novo lockdown pode causar nas empresas, e por isso ainda se mostram relutantes em retomar medidas de isolamento mais rígidas mesmo diante de uma provável segunda onda de infecção. Entretanto, em muitas partes da Europa, incluindo o Reino Unido, algumas restrições já foram impostas. Além disso, as eleições americanas também devem trazer alguma volatilidade aos mercados globais no fim do ano, prejudicando o crescimento da economia mundial e dos países emergentes.

Alguns analistas já falam em uma recuperação da economia global em formato de “K”, onde após um rápido declínio, há uma subsequente divisão acentuada entre vencedores e perdedores. Esse cenário parece bastante plausível se observarmos a recuperação das bolsas de valores globais em contraste com a destruição de empregos e rendimentos em todo o mundo. O aumento da desigualdade poderá ser uma das principais heranças da pandemia do coronavírus.

Por certo, há inúmeras razões para questionar se a recuperação percebida agora é meramente ilusória, causada pela profundidade do colapso inicial. Este pode ser o caso, especialmente se muitos países forem atingidos por uma segunda onda de infecções ou se as esperanças de uma vacina precoce forem frustradas. Ninguém pode saber ao certo. Por isso, ainda há uma enorme incerteza sobre o caminho que a economia brasileira e mundial percorrerá, e economistas não descartam que a recuperação possa parecer muito diferente de qualquer forma com as quais estão acostumados.

A recuperação em “V” parece muito mais um desejo do que uma possibilidade concreta.

Jomar Andrade da Silva Filho

Cuscuz, Café e Crise

Economia brasileira com sotaque nordestino.

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