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Além da pandemia, há várias tragédias em curso no Brasil.

Devo iniciar esta coluna discordando do próprio título que dei a ela, não creio que “tragédia” seja o adjetivo correto para caracterizar o que vivemos em nosso país, que é um descaso planejado. Confesso, portanto, que coloquei este título porque é mais chamativo e atrairia a atenção do leitor.  

Em meio à maior crise sanitária da nossa história, em que uma doença para a qual já existe vacina vitimou mais de 400 mil pessoas e continua a vitimar milhares todos os dias, é compreensível que os nossos esforços se concentrem em combater a proliferação da doença e diminuir o número de mortos. O nosso governo, no entanto, não combate a pandemia e tampouco aponta caminhos para a recuperação depois que finalmente superá-la. Pelo contrário, temos um governo que prolonga a pandemia e retarda soluções para recuperar o nosso país. 

Na educação, por exemplo, já tem pouco mais de um ano em que crianças e adolescentes se encontram afastados da escola, muitos deles sem direito sequer às aulas virtuais. Além dos prejuízos para o aprendizado e formação das nossas próximas gerações, o que pode nos colocar em um lugar ainda mais distante dos países desenvolvidos e nos empurrar para a fileira de trás dos países em desenvolvimento, é o fechamento de uma janela de oportunidades que vem se abrindo nas últimas décadas. São milhares de crianças e adolescentes que terão o seu ensino defasado e um abismo que se torna ainda maior entre classes, pois houveram aqueles que têm acompanhamento desde o início da pandemia e outros que passaram meses sem nenhum tipo de contato com o mundo da escola. O último Enem já captou um pouco do impacto desastroso causado na educação, fenômeno que deverá se repetir nos próximos anos.  

No ensino superior não é diferente, recentemente se tornou público que as universidades federais, as mesmas que têm sido tão essenciais no desenvolvimento de vacinas e no atendimento em hospitais universitários, estão operando com a mesma verba de 2004 com o dobro de alunos matriculados. Além de prejudicar os auxílios de permanência estudantil, fundamentais para que alunos de classes mais baixas permaneçam na universidade, o orçamento sucateado ameaça inviabilizar o funcionamento de várias universidades e institutos federais já esse ano. A UFRJ, a maior universidade do país, já publicou nota afirmando que, se esse cenário não se reverter, pode parar suas atividades em Julho. Como lidaremos com tantas perdas na educação e na ciência brasileira? 

No combate à pobreza e à desigualdades, vivemos um retrocesso sem precedentes e que jogou fora todas as conquistas alcançadas desde a redemocratização. O Indicador de Prevalência de Subalimentação feito pela FAO-ONU, indicou que a insegurança alimentar atingiu 59,4 % dos domicílios brasileiros em Dezembro de 2020. Destes, 15% em situação de insegurança alimentar grave, ou seja, fome. Se pensarmos que de Dezembro para cá, o auxílio emergencial teve seu valor reduzido em mais da metade e o preço dos alimentos e do gás de cozinha continuaram subindo, o cenário é ainda mais desolador. Além disso, estão sendo constatados efeitos reversos na ascensão social. Desde Agosto do ano passado, 32 milhões de pessoas deixaram a classe C e se integraram às classes D e E, segundo os critérios da FGV Social. Enquanto isso, a classe E cresceu em 24, 4 milhões de pessoas. Embora eu esteja aqui falando sobre números, cabe lembrar que estamos falando de pessoas, que têm suas vidas devastadas pela pandemia e pela ausência e destruição de políticas públicas pelo governo Bolsonaro. 

Esses dois cenários retratados até agora, apontam para um futuro com trabalhadores menos qualificados, uma desigualdade abissal e pessoas com menos renda para consumir e investir. Combinados, são a receita perfeita para a devastação econômica, pois faltarão trabalhadores que se encaixem numa produção que exige cada mais qualificação e haverá queda no consumo das famílias, que é responsável por boa parte do PIB brasileiro. Qual empresa ou investidor apostará em um país nessa situação? Confiança não enche barriga nem faz a economia crescer, é necessário que o Estado assuma responsabilidade e tome a frente da retomada econômica, com planejamento e investimento em educação, medidas de seguridade social e combate à fome e à pobreza e estímulo à melhoria da infraestrutura do país, ampliando a oferta de emprego. Em vez disso, Guedes e sua doutrina neoliberal anti-pobre, aponta cada vez mais para redução de gastos e investimentos, apostando que atrairemos investimentos apenas por simpatia de empresas e investidores. Isso sem falar no fato de que nos tornamos párias mundiais por conta de nossas políticas ambientais. Com esse governo, não há saída. Além do coronavírus, a sociedade brasileira tem que lidar com outro inimigo tão mortal quanto: o governo Bolsonaro. 

Se, chegando até aqui você discorda de tudo que escrevi, se pergunte: Em mais de 3 anos de governo, qual projeto o governo Bolsonaro apresentou para melhorar a educação, saúde, seguridade social, economia ou qualquer outra área? 

A resposta talvez te assuste. 

Valdeci Rodrigues

Nordestino da Paraíba, vivente no Ceará. Graduando em Ciências Sociais pela UFC(Universidade Federal do Ceará), desenvolve trabalhos na área de Ciência Política e Educação.

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