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A solidão fora da caverna

Estamos sobrevivendo a uma pandemia mundial e que em nosso país, devido o negacionismo do presidente, do atual ministro da saúde (General Pazuello), alguns famosos alguns prefeitos e religiosos do neopentecostalismo que seguem os rastros da ignorância, chegou a 235 mil mortes. Sou um sobrevivente. Tive amigos que morreram e tive vários familiares que tiveram que ser remediados e acompanhados sobre o estado clínico para ver o avanço dos sintomas. Por sorte, em meus familiares, os sintomas não foram fortes. O mundo mudou muita coisa, o que ainda tem resistido, é, de um lado, a ignorância ainda mais apurada, ainda mais brutalizada, ainda mais “justificada” por frases do tipo: “Deus/a natureza está selecionando os mais fortes, estamos evoluindo”, entre outras pérolas desse grupo lexical. De outro lado, pessoas comprometidas com a coletividade, comprometidas com o país, comprometidas com a vida e com a saúde física e mental de si e do Outro (técnicos de enfermagem, enfermeiras, professores, garis, médicos e tantos outros) abdicaram de si, muitas vezes das coisas mais sagradas que os conforta e os dá sentido para a vida (família/lar), só para se dedicarem a cuidar de pessoas que não são seus familiares, mas que precisam de ajuda.
Porém há uma solidão muito grande àqueles que vivem na ciência ou pela ciência. A solidão de quem sai da caverna é muito grande, pois a tentativa de explicar a amplidão do que existe fora da caixinha, fora da caverna, fora do senso comum é enorme. Quantas vezes quando estamos estudando ouvimos a pergunta: “tá descansando?” ou alguém a toa que está passando diz: “Oh vida boa eim!” As duas coisas aconteceram comigo nesses dias. Essa última, na janela do meu escritório, quando o avô de um aluno passou e eu estava dando aula online pelo computador e a primeira quando eu estava anotando no celular os referenciais teóricos de uma palestra que eu assistia no YouTube para entender o teórico que estou abordando em meu TCC.
Já recebi bronca de pais, porque os filhos estavam estudando demais, recebi bronca na escola, de chefe que não gosta da ciência, dizendo que eu não deveria me desgastar tanto criando material para meus alunos porque tinha tudo pronto na internet. São tempos difíceis e talvez fique pior nos próximos anos. Pode ser que talvez não, porque a universidade também está tentando reparar o grande afastamento que teve ou em que ainda tem em alguns lugares. Afastamento da população, da vida real, da vida comunitária, dos problemas locais Me lembro de uma vez dizer para um professor que a metodologia científica virara um dogma. Ele se irritou e me respondeu que não era e que dogma era por exemplo, se numa igreja, alguém chegasse e perguntasse ao supremo líder religioso daquela igreja se aquele Deus realmente existia e com certeza o líder religioso iria dizer mesmo sem provas que sim e pelo simples fato do dogma dizer que isso é uma verdade inquestionável. E continuou meu professor: “isso é possível na ciência, questionar qualquer verdade”. Eu sorri, porque sei que ninguém é “louco” de dizer que se pode escrever algo científico sem citar teóricos conhecidos ou sem ser a formatação correta do texto, sem ter metodologia, o resumo, a conclusão… Algumas iniciativas tem sido feita em relação a isso como a cartografia das subjetividades e também outras iniciativas como alguns projetos de extensão que realmente debatem em diálogo com as comunidades. Ainda uma iniciativa que a Fiocruz tem feito de forma gratuita é a especialização em Popularização da Ciência. Espero que superemos o abismo entre o saber sistematizado e o senso comum o quanto antes ou pelo menos que a ciência e os saberes tradicionais se entendam. A ciência sempre negou o senso comum e agora o senso comum está negando a ciência. Para te explicar sobre a solidão que tenho dito basta que me responda: quantas pessoas você conhece que lê 8 a 10 horas por dia, artigos, palestras online, participa de vários grupos, movimentos sociais? E mais, embora eu esteja com os pés dentro dos espaços onde o senso comum é hegemônico, meu tempo ainda mais dedicado à aproximação da ciência, sobretudo das ciências sociais, mas claro, sem negar as ciências exatas, biológicas, da medicina. Outro ocorrido comigo nessa semana, foi um senhor que me disse que não tomaria vacina, pois Deus o protejeria. Eu me irritei e perguntei se Deus não gostava das outras pessoas que morreram. Ele disse que não sabia, só sabia que Deus protegeria ele. Então eu perguntei se ele tomava algum tipo de remédio e por que que ele estava tomando aquele remédio já que Deus resolvia tudo. Era um senhor por quem tenho muita consideração, mas que fiquei muito irritado, embora o tempo todo tentei demonstrar que era só brincadeira.
As escolas dominicais, os louvores e os batismos no fogo (existem outros termos e frases desse mesmo campo lexical neopentecostal) são os melhores aliados do senso comum e do fanatismo religioso que incentiva o negacionismo científico e histórico. E eles estão em todos os lugares, muito mais enraizados e ramificados do que a ciência, do que o saber científico, do que a linguagem difícil dos programas de televisão formativos e das palestras ou de aulas e públicas que cientistas dão, são mais populosos do que os movimentos sociais e possui linguagem “difícil” até mesmo nos documentos voltados para educação básica, em que muitos professores que já estão na prática não consegue entender tais documentos. Eu me pergunto quantos cientistas, seja de qual área educacional for, conseguiria aplicar todas as áreas da BNCC conforme o documento pede? Possivelmente ele daria preferência à area dele. A defenderia com unhas e dentes. Nem o documento que deveria por princípio BÁSICO superar o senso comum consegue ter uma linguagem mediana, intermediária ou como diz Boaventura de Sousa Santos, que traduza o que a ciência fala para que o senso comum precisa. Nós que estudamos, que lemos, estamos em nossos cantos muitas vezes solitários, muitas vezes nos angustiamos ao vermos pessoas que amamos não acreditando no que estamos falando…a ciência se tornou magia? Merecemos a fogueira da solidão ou do deboche? do descrédito… da preguiça…ou da folga, como costumam dizer daqueles que estudam ou que trabalham com cognitivo: “você só faz isso!” E o só, só se torna cada vez mais repetitivo.
Por outro lado, a ciência nos “formatou” para ignorar a arte ou para afirmar que a arte não cabe no dogma da ciência (que necessita de resultados numéricos, quantitativos, verificáveis, mensuraveis). Se chama de arte tudo que é relacionado a experiência da vida, o diálogo,a música, as brincadeiras, o ouvir ao Outro e ao mundo.
Quer saber como me consolo na solidão? Leio mais, estudo mais, aprendo mais e acabo me distanciando mais. Talvez a grande alegoria da caverna necessite ser revista. Talvez desenhos em preto e branco devessem ser apresentados antes de sair da caverna…depois outros desenhos… depois objetos…texturas… cheios… só então, fosse possível sair da caverna. Mas esse caminho é longo e assim como para arte, a ciência não quer perder tempo e esse passo-a-passo que seria perfeitamente aplicável e aprendível por meio da arte se torna cada vez mais impossível. E aqueles poucos que conseguem sair da caverna, se tornam cada vez mais solitários e às vezes nos questionamos se vale a pena sair da caverna para ficar só. Se vale a pena optar por ser desacreditado pela massa do senso comum, visto como improdutivo, como preguiçoso, antissocial. E que, como diz Leandro Karnal, não há mais paciência para ficar nos grupos de conversas dizendo que o sol está quente ou que está calor e nenhum outro assunto mais relevante e profundo. Talvez a arte dissesse isso de forma mais lenta e agradável, mas que arte? A arte erudita? A arte da elite? Seria na ópera? Talvez seja essa outra reflexão importante.
Meu pai vivia me dizendo que estudar não era para pobre, fazer faculdade era só para rico, nós pobres tinhamos que aprender a trabalhar.
Hoje, nessa “solidão” isso faz muito sentido. Pois, uma vez que o pobre se afasta do senso comum e também não tem acesso às artes mais “sofisticadas”, aquelas que ressaltam a sensibilidade e o sentido da vida humana, ele também é excluído de toda a comunicação com o transcendente. É isso que a arte é, a comunicação com o transcendente. Enquanto no senso comum é a religiosidade popular, é a dança popular, a dança de rua. Aquele que “sai do senso comum” mas não chega a fazer parte da elite intelectual, agora passa a não pertencer a nenhum desses dois universos, não tem acesso arte clássica da elite e passa a questionar a arte popular.
É isso! Somente a arte pode nos salvar! Salvar o senso comum dos fundamentalismos e salvar a ciência da falta de relação com a vida, com o trascendente. A arte recebe a todos. Ai daqueles que não são sensíveis à arte… vivem na solidão, a pior de todas as solidões. Sem o transcendente, sem o bate-papo descontraído, sem a análise crítica de todas as falas e todos os atos e ações, sem descanso da mente, muitos deles e muitas vezes, necessitam de bebidas ou outras coisas para se desligar dessa máquina de analisar pessoas, atos, ações, história, visões, ideologias…
Por tudo isso repito, a arte pode nos salvar, nos unir e unir a ciência ao povo e assim, salvar os que vivem aterrorizados fora da caverna.

Andre Paz

Graduando em Ciências Humanas - UFMA.

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