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Quando a indisciplina é “compensada” e a disciplina é “punida” na sala de aula.

    Constantemente vemos alunos com histórico de disciplina e comprometimento se queixarem de serem injustiçados devido às notas, visto que se esforçam tanto e nem sempre conseguem o famoso 10 que tentam colecionar. Enquanto, muitas vezes vêm seus colegas que quase não entregam atividades, não estudam para as avaliações e quase sempre dão um jeito de colar sem o professor pegar e conseguem tirar ótimas notas e muitas vezes fecham o 10 ou pelo menos superam as notas de quem ralou muito. 

    Eu costumo dizer que isso tem a ver com ética. E que, aqueles que não a usam, um dia seus castelos de areia se desmancharão. Mas não sei se acontecerá mesmo. Grandes mentes deste século e também dos passados mostraram que não tem necessariamente uma relação entre o comportamento ou as notas da escola e o futuro que espera por esses estudantes. Mesmo os mais estudiosos poderão chegar a fazer curso superior e permanecer se dando mal e os “indisciplinados” poderão, mudando ou não, se darem bem. Nosso senso moral não engole essa ideia sem trazê-la a tona e remoê-la constantemente. Às vezes por conta própria, às vezes ao sermos questionados pelos “colecionadores de nota 10”. Nós, professores, nos mantemos firmes ao dizer que o castelo de areia não dura muito tempo. Do mesmo jeito ao dizermos que, quem estuda, é para “garantir” uma vida melhor. Sabemos que isso não é tão “garantido” assim. “Mas aumentam as chances,” retrucamos nós, quando é os próprios alunos quem constata que não é tão garantido assim.

    O porque da escola existir precisa estar claro e evidente tanto para os profissionais dela, quanto para os alunos e também seus pais. Como posso ser obrigado a enviar meu filho para uma instituição que não tenho certeza que estará usando bem o tempo do meu filho? Ele poderia estar em casa, sob minha tutela, aprendendo apenas os princípios que eu concordo, ou mesmo colaborando com alguma coisa que nos garanta ajuda mútua diante das dificuldades do presente.

    Não é que são perguntas difíceis de responder, mas por se tratar de resultados de longo prazo e por se tratar de cobertura, ou impacto não tão evidentes ou evidenciados, essas respostas não encontram o campo fértil que necessitariam e a dúvida e a aversão acabam sendo maiores. 

    Essa contextualização poderia tocar em inúmeros outros tópicos ou mesmo aprofundar mais esses mesmos, mas minha intensão é outra. Quero refletir com você leitor, leitora, sobre os alunos que “ganham”  o carimbo de “indisciplinados”. Quais seriam suas “punições” se é que isso é possível ou viável. Os alunos “disciplinados” se sentem “punidos” quando vêm que não alcançam o 10 mesmo sem medir esforços para dar conta de tudo que lhes é exigido, incluindo passar uma semana estudando para as avaliações. Mas por ironia do destino, muitas vezes não alcançam o 10 que seus pais ou a própria escola lhes incentiva tanto e festeja quando eles são alcançados. E não alcançam, tenho constatado isso, não é porque não estudaram, mas porque a pergunta tinha algum advérbio ou mesmo verbo que não fosse de domínio total desse aluno. Pensemos aqui numa turma de 6° ano. Eles ainda irão estudar os verbos. Estão na classe dos substantivos ainda. Sei que minha questão é facilmente retrucada pelo fato deles já usarem a Língua no dia dia. E trarei outra constatação diante disso. A falta de diálogos em casa, a falta de sustentação de argumentos sólidos por parte dos alunos, mesmo na oralidade evidencia isso. Não raro essa falta de segurança, ou mesmo de elementos como vocábulo e sustentação lógica, são substituído por choros ou violência em situações de tensão.

    Os alunos “nota 10” poderiam simplesmente fazer a intervenção diante daquela questão que errou e pronto, conquistou seu 10. Isso só exigiria do professor, numa turma de 19 alunos, a criar uma avaliação personalizada para cada aluno, ou mesmo o aluno poderia responder somente a questão que fosse sobre aquele assunto. Talvez o professor percebesse que de fato o aluno “nota 10” de fato não dominou ainda aquele assunto. Mas a questão ética é: ele se esforçou, deu seu máximo e o 10 representa isso; é um prêmio festejado por todos (escola, pais e colegas da turma). Por que ele não pode ter esse 10 se ele foi no seu limite? Será que na próxima ele se esforçará mais? Se sentirá culpado? Angustiado? Na semana que antecede as avaliações ele (o aluno) poderá perder o sono, diminuir o apetite, beber menos água, etc. 

    Além dessa discussão ética, também tem a da aprendizagem que deveria ser a mais importante, mas elas hora se entrelaçam, hora se contrapõem. Se entrelaçam quando a nota se torna uma motivação e não há aprendizagem sem motivação. Claro que a motivação poderia ser encontrada pelo simples fato do aprender. Aprender é algo prazeroso. Mas isso só ocorre quando há a necessidade ou interesse pelo aprendente. Interesse que pode ser natural (tendencia do estudante em gostar de tal assunto) ou provocado. Pode ser provocado pela importância do assunto, desde que alcance o campo simbólico do aluno, seu contexto de visão de mundo, ou esse interesse pode ser provocado por alguma aprovação social. Sim, os aplausos. Dos colegas que olham o vitorioso, “ele/ela é inteligente”, “tirou um 10”, etc. Também do professor, da escola e da família que elogiam não seu esforço, mas o lugar que alcançou. O lugar do 10.

    Se aprendizagem é importante, como garanti-la aos alunos que não fazem sua parte? Algumas vezes por impossibilidade, mas maior parte delas por simples irresponsabilidade ou falta de acompanhamento dos pais. Seria o professor o culpado? Seria o professor o responsável a conseguir “motivar” os alunos que são indispostos a estudar e fazer sua parte? Creio que essa resposta é perigosa de se responder. Um conhecedor da LDB talvez consiga pautado na legislação, mas será que tal resposta estará respaldada nas condições mínimas para que esse professor efetivamente consiga isso? A Constituição Federal distribui essa responsabilidade entre escola e família. Mas e quando isso não é feito por uma das partes? E como saber se as duas estão fazendo suas partes? E após isso ser constatado? Digamos que a escola cumpre sua obrigação de criar condições de aprendizado e que a família é que não colabore. O que deve ser feito? Falar com a “justiça”? Conselho Tutelar resolverá? Por outro lado, como saber se as tais “condições de aprendizagem” de fato são as mais eficazes? Isso por si só já é contraditório e permite milhares de interpretações e respostas. O simples fato de contrapor a educação transmissiva com a dialógica já é profundamente abissal. 

    Se a aprendizagem é o mais importante, como os alunos que não participam do processo formativo e querem apenas fazer as avaliações ou copiar as tarefas “atrasadas” para obter as notas podem aprender algo? É injusto não permitir a eles alcançarem a nota? Eles estão recebendo o justo apoio por não ficarem reprovados, já estão tendo a “chance” de recuperar a nota? Vou deixar minha singela opinião sobre essas questões.

    Se o aluno não aprendeu, tira dele a chance de aprender quando ele recebe uma nota por algo que não aprendeu. Mas há quem diga que não é só o conteúdo que se aprende. As vivências, a cidadania, o respeito, entre outras coisas também estão sendo infundidas nesses alunos. E se for o contrário? E se eles estiverem aprendendo da escola a serem antiéticos? Se for essa “ditadura da nota” ou “ditadura do conteúdo” que os ensinam que toda ditadura merece descumprimento e subversão? Se assim fosse já estaria bom, pois haveria algum senso de civilização e politização em suas atitudes. Mas se tiverem aprendendo que é a esperteza, que é enganar o professor e debochar dos colegas que seguem as normas que é algo compensatório? Talvez alguém me diga: há mais você só pensa em punição. A escola não pode ter essa ideia. Acontece que a própria formação universitária também não conseguiu fugir disso. Ou a pessoa é responsável e segue as normas que o “tutor” daquele grupo está reinvindicando, propondo para o avanço do processo educativo, ou o acadêmico, por exemplo, não recebe nota, ou seu indicador individual dentro do curso é penalizado com nota baixa. O contrário também é verídico. O acadêmico nota 10 (não pelo esforço, mas aquele que ocupa o lugar previso pelas notas) pode até ter um diploma diferenciado. 

    Será que Rui Barbosa estava sendo determinista?

De tanto ver triunfar as nulidades; de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça. De tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar-se da virtude, a rir-se da honra e a ter vergonha de ser honesto.Rui Barbosa

Andre Paz

Graduando em Ciências Humanas - UFMA.

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