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Por que a esquerda não se une ?

Você que me lê já deve ter visto por aí textos, entrevistas, debates e outras coisas mais abordando a necessidade de uma frente de esquerda visando uma aliança já para o primeiro turno das eleições em 2022. Esse movimento se intensificou após a eleição de 2018, perpassando as eleições de 2020 e segue rumo as próximas eleições. Porém, a esquerda segue dividida. Aqui nessa coluna, tentarei esmiuçar os motivos que dificultam essa aliança e, mais ainda, por que considero que ela é improvável de ser firmada em 2022, ao menos no primeiro turno. 

Para começar, devemos ter em mente dois pontos: 

O primeiro, é que o maior patrimônio de um partido político é o seu eleitorado. É ele quem lhe confere relevância, lhe dá vitórias e permite governar. Portanto, é de fundamental importância que um partido mantenha seu eleitorado mobilizado, engajado e busque consolidá-lo. Para isso, é necessário que o partido apresente candidaturas. Caso contrário, permite que o seu eleitor busque e se engaje nas candidaturas de outros políticos e de outros partidos. Do ponto de vista de um partido político, não faz o menor sentido abrir mão do seu eleitorado.  

O segundo ponto é a cláusula de barreira e o fim das coligações proporcionais. A cláusula de barreira estabelece que a partir de 2022, os partidos que não obtiverem ao menos 3% dos votos para deputado federal em todo o Brasil ou pelo menos 11 deputados distribuídos em 9 unidades da federação, terão restrições em seu funcionamento. Somado a esse cenário, existe o fim das coligações proporcionais (para deputados federais e estaduais, senadores e vereadores) que vigorou já em 2020. Antes, partidos pequenos poderiam coligar com partidos maiores e aproveitar as expressivas votações destes para eleger seus candidatos ao Legislativo. Agora, isso não é mais permitido. O único fator que determina o número de cadeiras que um partido ocupa numa casa legislativa é a sua própria votação. Esses dois fatores combinados pressionam os partidos a lançarem candidaturas próprias, a fim de garantirem sua sobrevivência. Alguns partidos do campo da esquerda correm o risco de serem extintos já na próxima eleição, como PCdoB e Rede. O PSOL está em uma posição um pouco mais confortável, mas ainda sob forte ameaça. 

Para analisar o comportamento eleitoral de um partido, é necessário se debruçar sobre as eleições passadas e traçar um paralelo com as suas pretensões futuras. E aqui tomarei como exemplo dois polos da esquerda: o PT e o PDT. 

Nas eleições municipais de 2016, o PT sofreu a maior debacle eleitoral de sua história. Com o impeachment de Dilma, a crise econômica e a Lava-Jato no seu auge caindo em cima de suas principais lideranças, o partido viu sua votação, que tinha atingido o auge em 2012, cair 60%. 2 anos depois, em 2018, o partido conseguiu ir ao segundo turno, mas perdeu sua primeira eleição presidencial desde 2002. Nas eleições de 2020, o PT tomou como estratégia lançar o maior número de candidaturas possíveis não só para engajar e consolidar seu eleitorado, mas também para usufruir todo o aparato que uma campanha eleitoral oferece (tempo de rádio, tv, etc) para reabilitar a sua imagem e a de Lula, sua principal liderança. A estratégia, apesar de não ter obtido amplo sucesso, surtiu algum efeito. O partido conseguiu estancar a queda, venceu em 4 das 15 disputas no segundo turno e ganhou 4 cidades entre as 100 maiores do Brasil. Em 2016, o PT não venceu em nenhum segundo turno e nem ganhou em nenhuma das 100 maiores cidades do Brasil. Com isso em vista, o partido ruma para adotar a mesma estratégia em 2022 para reconstruir a sua força, que ainda está longe do seu melhor momento. 

Já o PDT, percebendo o enfraquecimento do PT nos últimos anos, tenta se colocar como uma alternativa do campo da esquerda. O partido, que tem em Ciro Gomes seu principal nome, 3° colocado nas eleições presidenciais de 2018, tem como desafio expandir o seu eleitorado e fazer frente ao PT numa disputa por um eventual segundo turno. Para isso, o PDT também adotou como estratégia lançar o maior número de candidatos possíveis, para dar visibilidade ao seu nome e ao de Ciro Gomes. A dificuldade, no entanto, reside em nacionalizar o eleitorado. Nas 3 eleições que disputou, Ciro obteve votações em torno de 10%, a maior delas em 2018, em que obteve 12% dos votos. Em todas as eleições que disputou, o único estado em que foi o candidato mais votado foi o Ceará. Da mesma forma o PDT, boa parte da sua votação e dos seus candidatos eleitos são oriundos do Ceará, sem esse reduto eleitoral, o partido se torna um partido pouco relevante nacionalmente. Com isso, o partido deve concentrar esforços em difundir cada vez mais candidaturas por todo o Brasil, buscando aumentar a sua relevância e disputar a liderança da esquerda. 

Depois de enumerados todos esses pontos, fica mais fácil compreender por que uma frente de esquerda em torno de uma única candidatura é tão difícil de ser formada. A política não se restringe somente ao debate de ideias, projetos e soluções, mas é também permeada por interesses e disputas de poder. Alguns buscam não serem extintos, outros reabilitar sua imagem e manter o protagonismo e mais outros tentam se firmar enquanto alternativa. Tendo tudo isso em mente, teremos as chaves para analisar a política como ela é. 

Valdeci Rodrigues

Nordestino da Paraíba, vivente no Ceará. Graduando em Ciências Sociais pela UFC(Universidade Federal do Ceará), desenvolve trabalhos na área de Ciência Política e Educação.

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