Brasil

Não podemos ser suprimidos.

É muito doloroso falar sobre o atual momento do Brasil. Dói mesmo, porque enquanto cidadão, jovem, que tem uma vida a desbravar e muitos sonhos pela frente, assistir a destruição das nossas melhores práticas e ideais como se todas as construções que arduamente batalhamos para erguer fossem apenas um breve devaneio e agora a realidade cruel e dura se pusesse diante de nós é desalentador. Durante esses 21 anos de vida, aprendi e vivenciei inúmeras conquistas que governo após governo alcançamos, assisti a pessoas sorrindo, se alimentando, indo à escola, trabalhando, tendo possibilidades de melhorar de vida. Para se ter ideia, da redemocratização pra cá atingimos feitos que se fôssemos questionados à época, diríamos ser inimaginável conseguir tanto em tão pouco tempo. Promulgamos uma Constituição Cidadã e moderna, controlamos a inflação, diminuímos drasticamente o índice de analfabetismo, saímos do Mapa da Fome, elaboramos um sistema de saúde universal que serve de exemplo para o mundo apesar de suas faltas, reduzimos o desmatamento, combatemos de forma efetiva a pobreza, ampliamos oportunidades a quem nunca as teve e durante um bom período fizemos a economia crescer com distribuição de renda. Além disso, construímos e fortalecemos instituições de pesquisa e ciência, conselhos populares, Orçamento Participativo, universidades que ano após ano dão um salto de qualidade e ganham destaque mundial, entre tantas outras coisas. Enfim, a vida do povo brasileiro foi significativamente melhorada e a democracia tal qual a desejamos esteve dia após dia mais próxima de ser alcançada. São tantas realizações, incontáveis, que seria impossível não acreditar que este país tão maltratado e explorado finalmente proporcionaria aos seus filhos uma vida digna e justa, onde os princípios e direitos da dignidade humana seriam respeitados e protegidos. É importante salientar que todas essas conquistas foram méritos de vários governos que se dispuseram a enfrentar eleições, dialogar, reunir lideranças e pensamentos de diversos espectros políticos, porque a democracia e a boa política não podem ser monopólio de um só lado, pelo contrário, assim sendo, elas inexistem. É verdade que a vida que hoje vivemos não está ainda sequer perto daquilo que nos garanta tranquilidade para viver e garantir o futuro dos nossos filhos e que algumas vezes até regredimos, porque a política não é uma ciência exata, mas é incontestável que nunca estivemos tão bem. Por isso é tão dolorido perceber que sob o jugo de um tirano ignóbil, as nossas instituições e avanços vão sendo desconstruídos dia após dia.

A partir de um discurso de demonização da política, esta mesma que foi responsável pela concretização de todas essas conquistas que falei acima, possibilitamos a eleição de um ex-capitão do exército que exalta a tortura, propaga o ódio e desrespeita toda e qualquer diferença e divergência. Estamos diante de um governo que desconhece o tamanho da responsabilidade que tem e que age diuturnamente para desmontar tudo que os esforços da sociedade e da política integrados conseguiram durante esses anos, que à luz da nossa história, é ainda muito pouco. De repente, o combate à fome não é mais prioritário, a educação é inimiga, a ciência é mentirosa, defender os mais pobres é absolutamente indesejável e pensar diferente é intolerável. Durante muitas vezes ouvimos que existem oposições que apostam no quanto pior, melhor. Mas pela primeira vez na história do Brasil, quiçá do mundo, estamos presenciando um governo eleito que aposta no quanto pior, melhor. O bolsonarismo tem nas suas entranhas o que há de pior não só da política, mas das virtudes humanas. Simplesmente porque faz parte de um pensar que desrespeita vidas e as mata, fisicamente e depois à sua memória. Por isso, deve ser combatido de todas as maneiras, com todos os esforços possíveis e imagináveis, não importa de onde venham. Não se trata apenas de oposição a um governo, mas de lutar pela nossa capacidade de sentir a dor do outro, se importar, prezar por uma convivência pacífica e respeitosa entre os diferentes. Por isso que o bolsonarismo não nos trata como meros opositores ou adversários, mas como inimigos, porque isso é tudo que ele não é e quer extinguir. 

Não podemos ser suprimidos. Não outra vez. 

Valdeci Rodrigues

Nordestino da Paraíba, vivente no Ceará. Graduando em Ciências Sociais pela UFC(Universidade Federal do Ceará), desenvolve trabalhos na área de Ciência Política e Educação.

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Um Comentário

  1. O retrato fiel do que perdemos e estamos amargando. Um texto lúcido, doído… Essa é a dor de todos aqueles que tem discernimento e empatia.
    Parabéns!

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