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O silêncio de um país em luto

Esses dias me lembrei de um documentário que assisti algum tempo atrás, chamado “Estou me guardando para quando o carnaval chegar”, disponível na Netflix. O documentário mergulha na realidade de trabalhadores da indústria têxtil da pequena cidade de Toritama, interior de Pernambuco, que enfrentam jornadas de trabalho de até 3 turnos, estendendo-se até mesmo pelo final de semana. Mais do que a sobrevivência, o objetivo desses trabalhadores é juntar dinheiro para comemorar o carnaval. Enfrentam jornadas extenuantes o ano inteiro para ter direito a celebrar com gosto a maior festa do mundo. Já tem mais de um mês que o carnaval passou e pode parecer um pouco antiquado ainda estar aqui escrevendo sobre ele, mas é que ainda não engoli direito essa história de não termos carnaval esse ano. Não que eu acredite que o carnaval deveria ter acontecido no meio de uma pandemia que está tirando a vida de milhares de brasileiros todos os dias, aqui defendemos a ciência e a vida em primeiro lugar. Mas, pensando nesses trabalhadores e lembrando a canção buarqueana que diz que um dia, afinal, tínhamos direito a uma alegria fugaz, uma ofegante epidemia que se chama carnaval, me pego refletindo sobre esse país que há mais de um ano está em silêncio, sem festa, sem canto e sem celebração, escutando apenas os gritos estridentes de um governante que samba sobre a morte de seus governados. Não há carnaval nas avenidas, ruas e praças do país, nem quadrilhas juninas nos terraços e quadras, nem cortejos do bumba-meu-boi e tampouco festas de padroeiros. O futebol normalmente reservava 1 minuto de silêncio antes das partidas em respeito à morte de alguém, agora já são 90 minutos mais acréscimos de silêncio absoluto. O atacante, mais solitário do que nunca, comemora o seu gol sem torcida pra gritar. Retratos de um Brasil calado e, mais do que nunca, apartado. Durante todo o percurso da nossa história houveram vários Brasis em disputa, o do acolhimento, celebração e fraternidade, este que se mostra mais visível e alegre nas nossas festas e tradições. Um Brasil que é construído desde sempre pelas mãos que lapidaram o país a ferro e fogo, personagens principais dos pandeiros, atabaques, enxadas, pás e outros instrumentos da labuta e do saber que dão sustentação aos pilares que mantém esse país de pé. Do outro, o país das mãos que sustentaram chicotes e armas, que propaga morte, fome, exploração e também o vírus, já que as duas grandes ondas de contaminação se iniciaram nos endereços mais abastados, entre viagens “só com a família e amigos” e festinhas clandestinas. Estes são cúmplices do silêncio e do descaso. Por isso, para falar do Brasil que queremos para o futuro e para já, tem que se falar que queremos vida, vacina, pão, educação e festas, muitas festas. É celebrar a vitória de um Brasil, mais humano e sensível, sobre o outro, autoritário e genocida. Afinal, o que é um povo sem suas festas, ritos e tradições?

Defendo que, tão logo nos livremos do vírus, haja um grande carnaval por esse país. Faz bem para tudo. Para a economia, pro emprego e para o restabelecimento da alegria e da liberdade do nosso povo. Mais ainda, que possamos celebrar a vida dos que permaneceram e daqueles que se foram, já que fomos privados de uma despedida digna. Que esse país possa cantar: de dor, para espantar os males, mandar a tristeza embora, buscar o caminho que vai dar no sol e para que haja corpo, espaço, tempo e algum modo de dizer não.

Aí sim, tudo poderá começar depois que o carnaval passar.

Valdeci Rodrigues

Nordestino da Paraíba, vivente no Ceará. Graduando em Ciências Sociais pela UFC(Universidade Federal do Ceará), desenvolve trabalhos na área de Ciência Política e Educação.

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