Economia

Sinuca de bico: Brasil entre China e EUA

Com seus mais de 1,4 bilhões de habitantes e um processo de urbanização em plena aceleração, a China se consolidou de vez como o principal determinante na balança comercial brasileira. Entre 2001 e 2019, a parcela das exportações brasileiras destinadas ao gigante asiático saltaram de 1,9% para 28,5%. De janeiro à setembro deste ano – em plena recessão global – 34% das exportações foram atribuídas à China, uma parcela bem maior do que os embarques realizados para toda Europa, responsáveis por apenas 14% no mesmo período, os dados são do ICOMEX/Ibre.

A partir de 2009, a China se tornou o maior parceiro comercial brasileiro, posição antes ocupada pelos Estados Unidos desde o final do século XIX. Esse fato é associado ao vultoso crescimento econômico do país asiático nos últimos 20 anos, o que explica a grande demanda por insumos brasileiros.

Outro fator importante é a manutenção, de certa forma, da especialização brasileira na produção de commodities, e por outro lado, uma estrutura industrial pouco competitiva – limitadora das pautas de exportação. O reflexo disso é o desempenho do agronegócio durante a pandemia.

Enquanto a China é responsável por mais de um terço das exportações brasileiras – número que tende a aumentar –, a relação comercial com os Estados Unidos não vai tão/ bem. Apesar do país ser o segundo maior destino de nossos produtos e, atualmente, principal aliado na política externa, a relação comercial bilateral Brasil-EUA está no menor nível dos últimos 11 anos.

Segundo os dados divulgados pela Câmara Americana de Comércio (Amcham Brasil), a corrente comercial entre Brasil e Estados Unidos registrou queda de 25% entre os meses de janeiro e setembro deste ano, em comparação ao mesmo período de 2019.  Esse fato pode sinalizar o maior déficit bilateral dos últimos 5 ou 6 anos, projetado em um valor próximo de U$ 2,5 bilhões.

Então, temos a China detentora de 34,1% das exportações brasileiras, e os EUA em segundo lugar, com uma fatia de 9,7%. Podemos notar o aumento na importância da China – e de outros asiáticos – na balança comercial, simultaneamente à redução na importância relativa de outros parceiros, como o próprio EUA, Argentina (queda de 28%) e países baixos (responsáveis por pouco mais de 3,5% das exportações).

Segundo o relatório do ICOMEX/Ibre, a participação da Ásia chega a 50% nas exportações do Brasil. Isso significa que o continente oriental está se tornando cada vez mais decisivo para nosso comércio, mas ao contrário do que esperamos, os asiáticos – principalmente os chineses – não são tratados como bons fregueses no que diz respeito à diplomacia.

Atitudes como a do deputado federal Eduardo Bolsonaro e do ex-ministro da educação Abraham Weintraub, que fizeram declarações culpando a “ditadura chinesa” pela pandemia do coronavírus, além de não serem desautorizadas publicamente pelo PR Jair Bolsonaro, criam dúvidas e inquietações na relação com os chineses.

Nesse sentido, há um discurso controverso na política externa do governo Bolsonaro: a busca por uma relação de preferência – e submissão – aos EUA, quando eles não são mais tão importantes; e as manifestações hostis contra a China enquanto são nosso principal parceiro comercial.

Na realidade, podemos dizer que a relação preferencial não é com os EUA propriamente dito, mas sim com o republicano Donald Trump, o que pode explicar o discurso “anti-China” reproduzido por integrantes do governo Bolsonaro. Um exemplo desse alinhamento é a visita à Roraima feita pelo secretário americano Mike Pompeo, em meio ao período de campanha eleitoral nos Estados Unidos. A visita teve como principal entusiasta o ministro de Relações Exteriores, Ernesto Araújo.

O candidato que concorre à Casa Branca contra Trump, o democrata Joe Biden, tem um viés mais inclinado à preservação do meio ambiente e aos direitos humanos. No debate entre os candidatos que ocorreu em setembro, Biden prometeu sanções comerciais caso o Brasil não adote medidas mais severas de preservação ambiental. Como Bolsonaro é aliado direto do republicano, caso Biden seja eleito à presidência, as relações comerciais entre Brasil e EUA passarão por mudanças e incertezas a partir de 2021.

A “parceria” e a adoção do discurso de Trump não implicam em ganhos comerciais para o Brasil, muito pelo contrário. Pelas projeções do FMI, a China será o único país que terá uma variação positiva do PIB em 2020 (1,9%), já para os americanos é projetada contração de 4,3%.

Enquanto a China caminha para o crescimento e continua demandando exportações brasileiras, outros parceiros comerciais não nos dão tanta esperança assim. O próprio Trump adotou medidas protecionistas ao anunciar a redução na cota de importação de aço semiacabado brasileiro, em agosto deste ano. No caso dos países da Europa, o descaso do governo Bolsonaro com o meio ambiente é um grande problema, que pode inclusive atravancar o acordo Mercosul-UE, visto que para entrar em vigor o acordo deve ser aprovado nos parlamentos locais europeus.  Em relação aos nossos irmãos da América Latina, bem… estamos passando pela maior recessão desde a “Crise da Dívida Externa”, e as expectativas para 2021 não são tão animadoras assim.

Existe uma questão que pode ser decisiva para o futuro das relações comerciais entre o Brasil e seus dois principais parceiros comerciais: a tecnologia 5G. Tudo depende de se o governo brasileiro irá permitir a participação da gigante chinesa Huawei Technologies no “leilão do 5G” previsto para 2021.  Isso nos leva a uma sinuca de bico, situação que ocorre quando o jogador não tem ângulo para alcançar a bola da vez, e ainda pode facilmente encaçapar a bola errada.

De um lado, o embaixador chinês Yang Wanming diz que a decisão brasileira sobre a participação da Huawei definirá todo o relacionamento do Brasil com a China: “O que está em jogo é se um país consegue criar para todas as empresas regras de mercado e ambiente de negócios nos parâmetros de abertura, imparcialidade e não discriminação”, e ainda acrescentou: “Acreditamos que o Brasil saberá tomar decisões racionais, levando em consideração os interesses nacionais de longo prazo”; indicando a possibilidade de retaliações comerciais caso a empresa chinesa seja barrada.

Do outro lado, autoridades americanas pressionam o Brasil a banir a Huawei do páreo pela tecnologia 5G, afirmando que a chinesa endossaria o roubo de propriedade intelectual e a prática de espionagem. Em entrevista ao jornal “O Globo’’, o embaixador americano Todd Chapman foi bem claro ao sugerir que empresas americanas poderiam deixar o Brasil, por medo de terem sua propriedade intelectual ameaçada pela presença chinesa.

Urge, então, a necessidade de uma política externa coerente e bem definida. Se de um lado temos a China, país responsável por mais de um terço de nossas exportações; e do outro, os interesses de um único candidato à Casa Branca, que por sinal está atrás nas pesquisas eleitorais, e, deixa inúmeras incertezas sobre o futuro das relações comerciais a partir de 2021; é simples concluir que devemos abrir mão da submissão à agenda diplomática do governo Trump.

Rafael Cavalieri

Cuscuz, Café e Crise

Economia brasileira com sotaque nordestino.

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