Brasil

Ensaio Sobre a Cegueira Mental.

        “A pior cegueira é a mental, que faz com que não reconheçamos o que temos pela frente.”

José Saramago

Quem conhece Saramago e já teve o prazer de se deleitar com suas obras, provavelmente realizou a devida associação do título com a frase escolhida e agora teoriza sobre o que tratará este artigo. Para aqueles que não o conhecem, devo alivia-los da pressão do conhecimento. Estejam tranquilos consigo mesmos. O título e a frase escolhida por esse que vos escreve são meramente ilustrativos, não alteram o sentido e muito menos a compreensão do texto. Contudo, recomendo a leitura de suas obras para aqueles que, assim como eu, são fanáticos por livros. Não tratarei neste “ensaio sobre cegueira”, daquela com a qual estamos habituados (privação do sentido da visão), mas sim sobre a cegueira mental, ou seja, a falta de lucidez ou sensatez, a paixão pela ignorância.

Essa paixão pela ignorância se expressa na desvalorização das ciências, nos negacionismos históricos, na demonização do pensamento crítico, na imposição de um único pensamento, no ódio ao saber e, sobretudo, no orgulho de ser burro. Todavia, é preciso que sejamos honestos intelectualmente para reconhecer que essa paixão pela ignorância é instrumentalizada, institucional e proposital. Vivemos, no Brasil de hoje, um ataque nítido ao saber e a razão. São tempos sombrios. Fomos lançados novamente à Idades das Trevas. Estamos, mais uma vez, frente a frente com o obscurantismo cientifico. Agonizam as ciências pelo descrédito e pelo descaso e a história definha com revisionismos e negacionismo absurdos. Aqui, se valoriza a ignorância.

A manipulação dos fatos e dados pela atual gestão se tornou uma prática constante e muito comum. Consentida pelos acéfalos que ainda defendem a necropolítica de Bolsonaro, a ignorância se alastra como uma bomba atômica, destruindo tudo o que está em seu raio de alcance, desencadeando consequências irreversíveis ao país e, consequentemente, à sua população. Quando o saber incomoda, esvaziam a pasta da educação e cortam suas verbas. Quando a pesquisa não convém ideologicamente com seus posicionamentos, chamam de balbúrdia e censuram seus resultados. Quando a garotada começa a se interessar por política nas escolas, atribuem à doutrinação e não ao estímulo do pensamento crítico. Quando a desigualdade predomina, cortam direitos trabalhistas, esvaziam as poupanças e realizam reformas que prejudicam os mais pobres.

A demonização da ciência, do pensamento crítico e do saber no país, não se enganem, é mais um pretexto para calar e adestrar a juventude brasileira, restringindo-a a uma obediência cega e alienada. Os ataques constantes de Bolsonaro ao saber científico, não podem ser confundidos com a incessante verborragia que nos assola. São agressões conscientes e que possuem o objetivo de esvaziar o sistema educacional brasileiro, conservando os quadros de desigualdade do país. Em “Fahrenheit 451”, por exemplo, todos os livros são proibidos, as opiniões próprias são vistas como antissociais e hedonistas e o pensamento crítico é reprimido, preservando, deste modo, as estruturas de uma sociedade tecnicista, intolerante, anti-intelectual, alienada e desigual. Qualquer cidadão que é pego com livros é, no mínimo, confinado em um hospício.

Na obra de Ray Bradbury, é nítido o ódio ao saber e a paixão pela ignorância. A mediocridade intelectual é o padrão a ser seguido. “Fahrenheit 451” expõe uma realidade distópica, mas que não pode ser ignorada, principalmente em tempos de anticientificismo e negacionismo no qual vivemos. Se os nazistas um dia queimaram livros, por que não poderia o bolsonarismo fazer o mesmo? É preciso lembra-los que durante a campanha eleitoral de 2018, Bolsonaro prometeu usar um lança-chamas para “expurgar as ideias de Paulo Freire do Ministério da Educação?” Bolsonaro e sua manada de zumbis temem que as escolas formem uma juventude politizada, pois o bolsonarismo, assim como todo regime autocrático e fascista, necessita da ignorância para chegar e se manter no poder. Atualmente, no Brasil, o saber é, mais uma vez, alvo do jogo político.

Se o Partido dos Trabalhadores (PT) não faz autocrítica, tampouco o bolsonarismo pode conviver com o pensamento crítico e, principalmente, com a pesquisa científica e por esse motivo corta investimentos e inibe a produção do conhecimento. Bolsonaro e sua multidão de estúpidos possuem ódio ao saber e asco a ciência, são preguiçosos, não leem, não se informam e não querem aprender. Se orgulham de serem ignorantes. Este desgoverno, bem como expressou Gregório Duvivier durante audiência pública sobre a liberdade de expressão artística e cultural, em 05 de novembro de 2019, “é um pré-sal da estupidez humana, um manancial da ignorância”. Bolsonaro confunde moinhos de ventos com ameaças reais e protagoniza batalhas quixotescas contra o saber.

Bolsonaro mente, usa da desonestidade intelectual e da falta de caráter para se promover politicamente. De acordo com o site “Aos Fatos”, em 628 dias como presidente, Bolsonaro deu 1.675 declarações falsas ou distorcidas sobre variados assuntos, fazendo da mentira uma política pública. Contudo, suas falas, a exemplo de seu discurso falsário que abriu a 75ª Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), precisam, sem espanto, serem enquadradas na totalidade de manifestações por meio das quais, constantemente, expressa seu desprezo pela pesquisa cientifica, sua aversão ao saber e ao conhecimento e seu ódio aos pobres, índios, pretos, homossexuais, opositores, intelectuais, artistas, comunistas ou qualquer um que se oponha a ele. Bolsonaro alimenta seu rebanho, engordando seu gado com teorias da conspiração e teses fundamentalistas.

Precisamos entender, de uma vez por todas, que Bolsonaro e os bolsonaristas não irão mudar de opinião porque estamos apresentando argumentos sólidos, baseados em pesquisa científica e dados comprovados, nem mesmo que se sentirão constrangidos pela constante verborragia que emitem. Para isso é necessário outro patamar de compreensão e raciocínio, os quais não possuem ou não foram estimulados a ter. Necessitamos compreender isso o mais rápido possível, pois tentar mostrar o óbvio é um processo desgastante, que nos consome pouco a pouco. Precisamos sim, de diálogo, de debates que furem nossas bolhas ideológicas e de discussões multiplurais, mas com pessoas de carne e osso, que não venderam suas almas ao bolsonarismo.

O bolsonarismo é uma doença e a ignorância é seu principal sintoma. Destarte como toda patologia pode ser tratada, e acredito que seja a educação o caminho mais sólido para a solução de nossos problemas. Ela forma seres conscientes, questionares e capazes de pensar criticamente. É a única com força suficiente para derrotar de uma vez por todas o bolsonarismo, o negacionismo, o anticientificismo e ódio ao saber. O traço da ignorância está desenhado e compete a nós, nesse momento, decidir que tipo de sociedade queremos para o futuro. Elegeremos a distopia de “Fahrenheit 451” ou iremos priorizar um sociedade na qual a educação seja capaz de promover verdadeiras transformações sociais? Parafraseando Símon Bolívar, um povo ignorante e despolitizado é o instrumento cego da sua própria destruição.

Júlio Morari

Graduando de História; 24 Anos; Fanático por Livros.

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3 Comentários

  1. “Estamos a destruir o planeta e o egoísmo de cada geração não se preocupa em perguntar como é que vão viver os que virão depois. A única coisa que importa é o triunfo do agora. É a isto que eu chamo a cegueira da razão.” Saramago é realmente incrível!
    Com toda certeza, estamos sendo governados pela personificação de todos os tipos de cegueira. Parabéns pelo texto, está maravilhoso!

  2. Esse texto é maravilhoso, triste, mas realista e também, ao mesmo tempo, com uma luz no fim do túnel: A Educação. Com toda certeza, só ela curará da cegueira intelectual os bolsonaristas, apesar de ser uma missão difícil, tem-se uma solução e o que nos resta agora é enxergá-la também e mudarmos nosso direcionamento para ela.
    Obs: O texto está muito bem escrito, o autor é muito erudito, isso é nítido, mas o incrível é que mesmo com sua erudição, sua escrita é totalmente acessível, clara e objetiva, isso é fantástico. Boa escolha de colunista!

  3. Só tenho a ficar orgulhosa pelo o que foi publicado, e com tal conteúdo que diz tanto sobre o tempo corrente. Suas críticas só me fazem ficar feliz, por estas estarem sendo colocadas a luz, e ainda assim triste por esta ser a realidade pela na estamos existindo, mas é com atos como este, de reflexão e exposição que nós leva a entender a realidade e lutar por uma diferente. Um caráter dos textos de Júlio Morari que me deixam apaixonada são os dados que ele trás sem ser massivo, mas sim envolvente com nossa realidade.
    Sinto muito orgulho de ti meu amigo, e recomendo essa breve crítica a realidade, ao governo, a cegueira, para todos.

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