Brasil

Banalidade Social e Política no Brasil

O conceito de “banalidade do mal” inaugurado pela filósofa Hannah Arendt, se refere à normalidade de atos que, para seres pensantes, seriam os mais inacreditáveis em termos de aceitação social. A filósofa ainda afirma que o mal pode ser algo comum, pode estar na mais medíocre criatura, como bem analisa o caso de Adolf Eichmann, um dos principais organizadores do Holocausto. Ela verificou que em seu discurso, em julgamento após a Segunda Guerra Mundial, ele se apresentava como mero cumpridor de ordens, executando corretamente suas tarefas, sem levar em consideração o que realmente significava sua parte no esquema nazista. Ele era um de muitos do mesmo tipo, indiferente ao sofrimento alheio, com uma frieza e desconsideração dos resultados de suas práticas. Por mais que sua teoria tenha tido maior notoriedade no século passado, ainda se mostra atual, principalmente no que se refere ao contexto brasileiro.

A atual descrença com a política e os seus ramos evidencia e favorece uma banalidade de atos dos agentes públicos. A relativização das reiteradas participações do Presidente da República em atos nitidamente antidemocráticos, bem como a incitação de tais em meio à maior crise sanitária do século, deveria ter sido alvo de críticas e reprovação pela massa popular brasileira e do Congresso Nacional. Não há o que se relativizar, é objetivo: após vários anos de nossa história de serventia à pequenos grupos, de 21 anos de ditadura militar, nada mais objetivo que defender a permanência de um regime democrático e reprovar qualquer manifestação que venha a contrariar uma conquista como essa, principalmente se for advinda de um Chefe de Estado.

E o fato que enseja essa libertinagem não só se restringe à descrença política, mas também transparece na manutenção dos 30% do eleitorado bolsonarista (que segue as ideias de Bolsonaro independentemente de quais sejam), assim como o “não se importar” de grande parte da população brasileira. Para este último fato, afirma Arendt: “A atitude do povo alemão quanto a seu próprio passado […] não poderia ter sido demonstrada com mais clareza: as pessoas não se importavam com o rumo dos acontecimentos e não se incomodavam com a presença de assassinos à solta no país, uma vez que nenhuma delas iria cometer assassinato por sua própria vontade”.

É preciso que haja uma desvinculação da relativização em certos assuntos (em que alguns alegam falaciosamente liberdade de expressão), e tratar estes com a sua devida objetividade. A relativização de assuntos concernentes à vida, à liberdade e, substancialmente, relativos ao regime democrático, são de um perigo tamanho que podem acarretar o que houve na Alemanha Nazista, pessoas comuns praticando atos desumanos, justificando para tal a mera obediência ao Estado e uma população cega quanto à atos que firam direitos básicos do homem.

Deuzimar Cardoso

Cearense, Estudante de Direito e pesquisador em Ciência Política e Filosofia Política.

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