Brasil

Na política, todos são identitários.

Um dos grandes debates entre lideranças políticas, intelectuais e militantes versa sobre o papel das identidades na proposição e construção de projetos e programas políticos. Mas afinal, o que são identidades? Quem as têm? E qual a sua relevância social e política? Abordarei essas questões a seguir. 

Identidade é a forma que você se identifica e vive no mundo. Porém, mais do que isso, é também a maneira como a sociedade te enxerga e proporciona alguns hábitos de vida. Tais hábitos podem ser constituídos de privilégios ou opressões, pois ainda que partam de uma identificação individual, tornam-se estruturais em uma sociedade permeada por desigualdades. E é aqui que entro no primeiro ponto para tratar da relevância política das identidades: todos são constituídos de identidades. O grande problema reside no fato de que nosso saber, instituições e estruturas sociais e políticas, foram pensadas a partir de um olhar universal que na verdade considera apenas uma única identidade: a branca, especialmente a masculina. Por esse motivo, tendemos a achar que os identitários são aqueles que se diferenciam da identidade branca e masculina. Portanto, você sujeito branco, também é um identitário. Racismo, colonialismo e patriarcalismo são grandes características da branquitude, por exemplo. 

Dito isso, é impossível qualquer proposição política ou programa de governo sério que não esteja também centralizado em critérios de raça e gênero, por exemplo. Como é possível num país como o nosso, que se discuta economia, distribuição de renda, redução da desigualdade social sem levar em conta que o perfil mais atingido pelos amálgamas da nossa sociedade são pessoas negras e, mais ainda, mulheres negras? Para não me restringir apenas ao campo teórico, me utilizarei de dois exemplos, um positivo e outro negativo. Como um exemplo positivo, trago o nosso principal programa de transferência de renda e seguridade social: o Bolsa Família. Quando formulado, o programa foi pensado para que as principais beneficiárias fossem as mulheres, pois além de serem as maiores responsáveis pelos filhos, reduziria também as suas dependências financeiras de uma presença masculina, o que impacta diretamente não só na redução de um abismo social que é ainda muito grande, como também auxilia na emancipação feminina. Agora, me diga, seria possível que o programa fosse gestado dessa maneira caso não houvesse uma profunda discussão de gênero? Certamente não. 

Como exemplo negativo, tomemos a lei 1343/2006, conhecida como Lei de Drogas. Entre outros fins, essa lei busca diferenciar usuários e traficantes, estabelecendo ao segundo punições mais severas. Tal distinção objetivou reduzir o encarceramento e tratar as drogas mais como um problema de saúde e menos penal, mas obteve um efeito totalmente inverso. Acontece que a lei não especificou de forma objetiva como essa distinção deveria ser feita e deixou a cargo das forças policiais e judiciais fazerem essa diferenciação, o que resultou num encarceramento ainda maior de jovens negros. Ora, é sabido que desde os tempos coloniais, esse país constrói uma imagem desumanizada e criminalizante de pessoas negras, que permitiu e permite males como a escravidão, genocídio e encarceramento em condições sub-humanas. Portanto, não é difícil imaginar que essa lei, da maneira como foi feita, viria a contribuir para aumentar o encarceramento. Acontece que o Brasil nunca levou o debate racial a sério, tampouco tratou a raça como assunto central de qualquer política pública que viria a ser feita. Esse é um dos motivos que ajuda a explicar por que governos, seja à esquerda ou à direita, mantiveram praticamente intactas as estruturas sociais que sustentam o racismo. 

Por fim, entro no meu último ponto: o voto também tem identidade. Basta pegar os dados das pesquisas eleitorais e de aprovação do governo Bolsonaro para chegar à conclusão de que o principal eleitor e apoiador do governo tem um perfil branco, masculino e de classe média, ao passo que o perfil do eleitor do PT e de quem o rejeita é, principalmente, feminino, negro e pobre. Porém, vale ressaltar: não estou afirmando que esse seja o perfil que corresponda à totalidade de seus apoiadores ou opositores, o buraco é bem mais embaixo e essa análise renderia aqui outra coluna. O que evidenciei é que a identidade também incide diretamente sobre o voto e se observarmos em outros países, também perceberemos que essa estratificação também está presente. 

Chego ao final dessa coluna fazendo a seguinte reflexão: se queremos construir um Brasil justo e digno, que combata as nossas desigualdades de forma efetiva, temos que centralizar as nossas discussões em torno da raça, gênero, classe, sexualidade e muitas outras identidades que constituem cada um de nós. Não discutir ou tratar esse debate como secundário, é propor um país governado por e para os mesmos de sempre. 

Valdeci Rodrigues

Nordestino da Paraíba, vivente no Ceará. Graduando em Ciências Sociais pela UFC(Universidade Federal do Ceará), desenvolve trabalhos na área de Ciência Política e Educação.

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