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Aplausos e agressões: A carreata do impeachment em Florianópolis.

Em 2007, quando estava na escola e, cursava meu terceirão, tive o imenso prazer de assistir uma palestra de Amilcar Neves, o escritor do livro Relatos de Sonhos e de Lutas. Um livro incrível e instigante. O livro é composto por capítulos que abordam os sonhos e, outros, que abordam as lutas. Ao ler o livro, fiquei fascinado! Li e reli! Queria encontrar respostas nas entrelinhas! E, a cada leitura, com mais dúvidas eu ficava. Queria, a todo custo, saber o motivo pelo qual a parte dos sonhos era tão “amalucada”, beirando ao absurdo, em alguns momentos!

No dia da palestra, lá estava eu, com o livro na mão e, diversos questionamentos em mente. Deleitei-me daquela palestra. Ao final, chegou a hora mais esperada: o espaço para perguntas! Questionei o escritor o motivo pelo qual os capítulos dos Sonhos não seguiam uma ordem lógica! Com um sorriso no rosto, ele me respondeu algo que guardo no coração e, levo para a vida: “Nem sempre os sonhos são lógicos. As vezes são fantasiosos e, outras vezes, utópicos…” Esta frase sanou todas as minhas dúvidas acerca do livro. Mas, me abriu uma observação diferenciada acerca da vida.

Na tarde de sábado, 23/01/2021, enquanto participava da carreata do impeachment e, pró-vacina, promovida pelas Centrais Sindicais, Frente Brasil Popular, Frente povo sem medo e Movimento #anulaSTF, pude notar uma leve mudança no perfil do florianopolitano, frente aos fatos políticos que vem assolando nosso país. O ponto de encontro e partida da carreata estava marcada no Koxixo´s, na av. Beiramar e, conforme previsto, por volta das 16h, saímos rumo ao continente. Logo na saída, a carreata que, contava com um caminhão de som, seguido de, aproximadamente, 600 veículos, foi parada pela Polícia Militar (PM). Após um tempo de conversa com o Comandante da PM, a carreata foi liberada. Mas, com pedido de que o caminhão de som andasse um pouco mais rápido. A partir deste momento, a carreata dispersou um pouco. Afinal, haviam muitas sinaleiras no trajeto ao qual realizaríamos, o que acabou por atrasar parcela do grupo. Porém, tivemos informações que, mesmo dispersos, diversos pequenos grupos se formaram e, transitaram pelas ruas da cidade, levando a mensagem almejada: FORA BOLSONARO! QUEREMOS VACINAS!

Apesar da dispersão, até o momento, tudo estava perfeito… Vivíamos ali um sonho de carreata… Talvez fantasiosa… Talvez utópica! Muitos eram os aplausos por onde passávamos. Pessoas que nos acenavam; pessoas que buzinavam; pessoas que faziam sinal de apoio! Tudo perfeito, haja vista a força que o Bolsonarismo possui na grande Florianópolis. No continente, o apoio continuou muito forte. Alguns, poucos, até tentaram esboçar resistência à nossa passagem, proferindo palavrões. Todavia, nada que abalasse aquela linda carreata. Parecia-me, “amalucado”, irreal, todo apoio que estávamos recebendo!

Com o retorno à ilha, a situação mudou sua face. Talvez aqui, iniciávamos a verdadeira luta. Na passagem da carreata pela praça do bairro Saco dos Limões, onde havia uma aglomeração muito grande, dois jovens, brancos, bem-vestidos, tentaram impedir a passagem da carreata. A bordo de uma pick-up prata, seguiram pela contramão, paralelo ao primeiro carro da carreata (haja visto que, nesta hora, já havíamos nos ‘perdido’ do caminhão de som). Enquanto andavam pela contramão, ofendiam e ameaçavam os integrantes do primeiro carro, ao qual portavam a bandeira da Central Sindical. Ao chegarem próximo ao acesso ao bairro Carvoeira, o motorista da pick-up conseguiu forçar a parada da carreata, jogando o seu carro contra a mesma, sem conseguir atingi-la. Motorista e caroneiro da pick-up, então, saíram do carro, e foram ao encontro do sindicalista (ao qual manterei a identidade sob sigilo, para a sua segurança). As ameaças de violência física prosseguiram. O sindicalista teve a bandeira arrancada de suas mãos e, rasgada na sequência. Também, teve seu carro chutado por um dos agressores. O motorista do carro que estava atrás do carro do sindicalista, tentou dispersar os agressores. Porém, também foi atacado, vindo evadir-se do local. Os agressores voltaram ao seu carro e, seguiram na frente da carreata, tentando causar novo motim. Ao chegar na entrada do bairro Carvoeira, os mesmos atravessaram o veículo no meio da rua, na tentativa de impedir a passagem da carreata por aquele bairro. Todavia, a passagem estava prevista para passar pelo bairro ao lado, o bairro Pantanal. Então, seguimos nosso rumo.

Em conversa com o sindicalista, o mesmo trouxe um ponto, muito importante, para reflexão. Aqueles agressores e bolsonaristas (o que é redundante falar, uma vez que o bolsonarismo agride os cidadãos em todas suas esferas), possivelmente, sentiram-se “vitoriosos” pelos seus atos, arrancando bandeira, ameaçando, chutando veículos e, impedindo a passagem da carreata por um bairro onde nem passaríamos. Mas, o que este “ato heroico e patriótico” representa perante as mais de 200 mil mortes pelo Covid-19? O que este ato “ato heroico e patriótico” representa perante a causa ao qual nos levou às ruas, que é a reivindicação para que haja produção em massa da vacina? O governo não tem planejamento, não tem perspectiva! É uma total omissão! Portanto, o “ato heroico e patriótico” daqueles agressores, é só um alfinete, perante o grande “palheiro” que o presidente vem causando. E, é por este motivo que estávamos nas ruas! Precisamos barrá-los, urgentemente, para que “alfinetes” e “palheiros” sejam colocados em seus devidos lugares! Não dá mais para ficarmos inertes, vendo pessoas morrerem! Precisamos estar nas ruas! Precisamos reivindicar! Precisamos resistir! Precisamos ocupar, novamente, o nosso espaço de fala!

Nossa carreata, seguiu firme e forte até a COMCAP, onde encerramos a carreata com um ato em defesa aos trabalhadores da COMCAP. Trabalhadores estes que estão em greve, na tentativa de barrar as medidas de sucateamento e privatização ao qual o prefeito quer que sejam aprovadas na câmara de vereadores (que já foi tema de uma coluna passada)

Quanto aos agressores, possivelmente, responderão na justiça, pelos atos cometidos.

Sigamos na luta! Afinal, os sonhos podem até serem utópicos. Mas, a luta não!
Forças, Môs Quiridos!

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