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Democracia, fome e sede: as obviedades que precisam ser (re)lembradas

É – ou deveria ser – do senso comum que a origem da palavra “democracia” deriva do grego, e significa “governo do povo”. Nesse contexto, o Brasil teve grandes avanços com a Constituição de 1988, ao garantir o sufrágio universal, exercido pelo voto direto e secreto.

Já não falamos mais em voto de cabresto, voto censitário; homens e mulheres, ricos e pobres, todos podem votar e ser votados, salvo pouquíssimas exceções. Há o que comemorar, ainda hoje? Sim. Essa possibilidade quase geral de exercer a cidadania foi resultado de muitas lutas, a exemplo do feminismo, que conseguiu o voto das mulheres às custas de muito sangue e suor.

Mas fica aqui um questionamento: será que a democracia se faz apenas com o sufrágio universal? A possibilidade de todos irem às urnas para escolher seus representantes consolida nosso Estado como sendo efetivamente democrático?

Como resposta à essa pergunta, penso que a música “Comida[1]”, consagrada pela banda Titãs, nos dá boas dicas:

(…) A gente não quer só comida
A gente quer comida
Diversão e arte
A gente não quer só comida
A gente quer saída
Para qualquer parte…

(…)

A gente não quer só comida
A gente quer bebida
Diversão, balé
A gente não quer só comida
A gente quer a vida
Como a vida quer[2]

(…)

 

A possibilidade de todos terem a oportunidade de votar em seus representantes é ótima. Mas devemos apelar para obviedade e fazer outra pergunta: de que adianta o direito ao voto se falta comida e água? Quem tem fome, sede e não tem saneamento básico, não tem sequer condições físicas básicas para fazer uma escolha real de seus representantes. Quem não tem comida, água e higiene, não tem como ler projeto de candidatura, pois suas preocupações são outras. As emergências fisiológicas precisam ser sanadas para que se possa fazer qualquer tipo de escolha, inclusive a dos agentes políticos.

Agora imaginemos um Brasil sem fome, sem sede e com saneamento básico. Pessoas com casas seguras. Podemos já discutir uma escolha bem pensada nos representantes políticos? Conseguimos começar a discutir a expressão “escolha”? Ouso dizer que não. Voltando à música “Comida”, “ a gente não quer só comida, a gente quer comida, diversão e arte”, “balé”, “saída para qualquer parte”, “a vida como a vida quer”.

Sem educação de qualidade, lazer, arte, cultura, como se faz um eleitor de verdade? A democracia demanda crítica, análise. E só critica e analisa quem tem a oportunidade de estudar tranquilamente, com professores bem preparados, em salas de aula confortáveis. Quem tem acesso a bons livros, música, cultura, toda sorte de manifestação artística.

A gente tem fome e sede de uma existência transformadora, e não apenas de sobrevivência. A gente quer comida que não nos adoeça, água potável, trabalho bem remunerado, descanso adequado, lazer, sorrisos, expressão da sexualidade sem opressão e com proteção. Música boa, livros que são viagens, viagens que são livros. Queremos cinema, teatro, museus, exposições de arte, concertos, shows. Queremos nossos biomas protegidos. Queremos saúde preventiva e, quando necessário, reparadora.

Quando todos cidadãos tiverem acesso a tudo quanto foi elencado aqui (e mais um pouco), poderemos conversar sobre escolhas de verdade, inclusive no âmbito político. Porque só quando a cidadania significar mais que a capacidade de votar e ser votado, é que alguém poderá se sentar em frente à televisão no horário eleitoral, ou ver pela internet as propostas de governo dos candidatos, e compreender se há candidatos a cargos do poder legislativo prometendo coisas que são de atribuição do executivo ou vice-versa. Compreenderão o que é factível de acordo com o cenário local, regional e mundial, e então terão aptidão para saber o que desejam de seus representantes políticos.

Para quem leu até aqui e pensou, “nossa, que utópico, se depender disso, nunca teremos democracia”, eu lhe pergunto se você sabe a diferença entre sufrágio e voto. Porque essa diferença de conceitos é elitizada e se você não a sabe, significa que você também faz parte da maior parte dos cidadãos do país que não tem acesso ao básico. Porque tudo quanto foi elencado aqui é básico; o problema é que naturalizamos as nossas fomes e sedes.

E o projeto neoliberal vigente que vem sucateando os serviços públicos, só reduz o nosso potencial democrático. E Estado Mínimo não vinga em terra de desigualdades – a não ser que o projeto seja mantê-las.

[1] Composta por Arnaldo Antunes, Sérgio Brito e Marcelo Fromer

[2] Disponível em <https://www.vagalume.com.br/titas/comida.html>

Arte por Danielle Cevallos Soares

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