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Em defesa de uma educação de qualidade

Nas últimas semanas, alguns debates sobre educação vieram à tona alavancados por influenciadores da internet. Primeiro, Débora Aladim, youtuber de educação, com foco para o ENEM, gravou um vídeo em que, entre outras coisas, criticou a prova de História do ENEM desse ano por ser “muito interpretativa” e defendeu que a prova deveria conter mais “decoreba”(sic). Depois, o youtuber Felipe Neto publicou alguns tweets criticando o ensino dos clássicos da literatura nas escolas, afirmando que o ensino de autores como Machado de Assis, por exemplo, afasta o estudante da literatura. Ambas as visões fazem parte de um modelo de educação ultrapassado e limitante. Nesta coluna, mais do que contrapor essa visão, defenderei uma educação de crítica, de qualidade e para todos.
Primeiro, vamos começar pelo ENEM: O ENEM não é uma prova feita pra medir quem “sabe mais” ou quem “sabe menos”, até porque o conhecimento é relativo. O maior objetivo do ENEM é testar a sua capacidade de analisar, interpretar e compreender diversos assuntos e, mais do que isso, relacioná-los com alguma profundidade. Portanto, ao se deparar com uma prova que cobra interpretação e interdisciplinaridade, não acuse a prova de se desviar do que você acha que ela deveria ser. Apostar numa educação crítica é cobrar justamente essas habilidades.
Boa parte da problemática relacionada a esse assunto é que uma grande parte das escolas não te ensinam as habilidades fundamentais para desenvolver um raciocínio mais amplificado. Concentram-se apenas em te empurrar vários conteúdos e te fazem acreditar que quanto mais daquilo você absorver, mais está preparado para uma vestibular e uma universidade. Isso é um tremendo equívoco. Por isso, a prova de História desse ano foi alvo de muitas críticas por ser “muito interpretativa” e por isso muitos alunos sofrem para se adaptar à universidade. Pois, adivinha só? A universidade exige de você capacidade analítica, interpretativa e multidisciplinaridade.
Agora, sobre o ensino da literatura: a leitura e conhecimento dos clássicos e das escolas literárias é fundamental e imprescindível. São essenciais para a compreensão da nossa história cultural e artística, além da nossa formação social. A discussão não deveria ser sobre SE deveríamos abordar Machado de Assis nas escolas, mas COMO. Infelizmente, a literatura só consta no currículo da educação básica a partir dos anos finais e isso faz com que ao se deparar com ela, os alunos não tenham nenhuma familiaridade e tendam a achar o seu ensino difícil e enfadonho. Portanto, é de suma importância que desde os primeiros anos escolares, os alunos sejam introduzidos à literatura, com obras que respeitem as temáticas da sua idade, para que não cheguem a uma idade mais avançada e achem que ler Dom Casmurro é muito complicado. Porque não é.
Também é preciso respeitar a diversidade e as potências de nossos jovens e da escola pública. Os alunos são seres dotados de muitos saberes, diversos. É de fundamental importância que o ambiente escolar, para além de abordar todos esses saberes, os instigue a conhecer outras realidades. Se podem ser motivados pela familiaridade, também podem pela curiosidade.
A escola pública, apesar da ampla desvalorização, tem potencial e capacidade para desenvolver bem todos esses assuntos. Cabe a nós, para além de defendê-las, incentivar a sua potência. Não é por que muitas escolas têm o ensino defasado que se deve defender a diminuição do seu currículo. Fazer isso é dar ainda mais força ao seu sucateamento e à perda de qualidade. E quem perde com isso são as camadas mais pobres da população.
Por último, mas não menos importante: o debate educacional deve ser estendido a todos, porque a educação é um dos maiores patrimônios da sociedade. Mas, para valorizá-la, devemos dar a devida importância àqueles que se desbruçam sobre a temática e que constroem a educação brasileira com qualidade, apesar de tudo. Felipe Neto, Felipe Castanhari e Débora Aladim não são essas pessoas. Podem até estar bem-intencionados, mas prestam um desserviço muito grande.

Valdeci Rodrigues

Nordestino da Paraíba, vivente no Ceará. Graduando em Ciências Sociais pela UFC(Universidade Federal do Ceará), desenvolve trabalhos na área de Ciência Política e Educação.

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