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A SOLIDARIEDADE LIBERTA

Peço licença para nossos irmãos de fé e de re-existência, os judeus. Peço licença, pois usarei termos históricos que lhes causam terror na memória. Mas preciso usá-los diante do terror que também tenho presenciado em nosso país. Também é motivo de usar tais termos, uma vez que a empatia alcança seu ápice quando não só nos colocamos no lugar do outro, mas quando sentimos o que o outro sente, quando passamos por algo parecido.
Nosso país tem muito o que se envergonhar de sua história de domínio pela elite branca. As mortes e o terror que causou aos escravizados, indígenas e negros, ainda doem na memória e na consciência de nação que o Brasil felizmente tem, embora que em um canto aqui outro acolá.
Tenho visto alguns familiares, também a colegas de profissão (professores) e de faculdade, lamentarem mortes de entes queridos que não podem velar, não podem celebrar o luto. Simplesmente assistem levar o corpo de pessoas tão importantes de suas vidas sem poderem se despedir afetivamente. O medo da morte e a obrigatoriedade em ter que trabalhar com todos os riscos à solta e sem nenhuma condição de segurança (ônibus cheios, clientes prepotentes, funcionários públicos que abusam do poder…) me faz lembrar dos relatos do sobrevivente de um campo de concentração, o psicólogo Vitor Franklin. Ele dizia que alimentava em sua mente cotidianamente que, se adoecesse, era certeza a sua morte. Ele dizia que sabia que era se mantendo saudável e trabalhando, uma das poucas formas que lhe restava de re-existir.
Também me faz comparar o momento que vivemos com o que viveu os nossos irmãos judeus, o fato de ver a coexistência da barbárie, do descaso, do deboche e da violência psicologica ao lado da dor, do medo, mas também da solidariedade entre os que sofrem e os que possuem um mínimo de humanidade. Ver pessoas ostentando gestos de supremacia branca nos espaços onde o governo federal está presente. Mas ELE NÃO mentiu sobre quem era. O excrementíssimo presidente nunca mentiu sobre suas aspirações nazifascistas. Lembro-me de dizer ao meu irmão que fazia campanha para o Coiso: “saiba que se eu morrer pela minha militância e apego à filosofia da solidariedade e amor ao próximo, tuas mãos estarão sujas do meu sangue.”
Eu não morri. Não fisicamente. Mas minha consciência histórica e ancestral é assassinada cotidianamente desde a eleição desse governo genocida. Cada vez que ele relativiza a escravidão, os massacres e os racismos na história e na política desse país. Morro aos poucos por saber, que assim como numa guerra, eu e minha família podemos ser vitimados, atingidos por essa arma biológica que poderia ter sido contida, mas foi e tem sido disseminada, quando não pelos supremacistas brancos da elite, por fundamentalistas e pequenos fascistas alienados e disfarçados de conservadores ou neoliberais.
Morro aos poucos quando vejo que as instituições de poder assistem tudo e nos pedem calma ou paciência.
Morro aos poucos quando vejo que os cientistas nos alertaram e mostraram evidências comprovadas e vimos o negacionismo sobrepor um mínimo de bom senso e tudo que vimos das autoridades foram “notas de repúdio”.
Morro aos poucos ao pensar que um ano já se passaram na pandemia, e meu filho que nasceu nos primeiros dias dela, até hoje não pode ir a uma missa ou a um aniversário. E as vezes que fomos obrigados a levá-lo na cidade, nossa tensão e medo de contaminação com certeza foi sentida por ele. Talvez o motivo que ele fique tão quieto quando saímos e sendo ele tão ativo dentro de casa.
Que pena, caros e caras compatriotas…que história triste nossa nação gosta de escrever. Primeiro o genocídio indígena, depois a escravidão e com ela o escárnio que ainda é presente nos dias atuais, com ela um racismo que nasce e é aprovado por religiosos comprometidos com o poder e com as possibilidades de luxo que apoiar os poderosos proporciona. O racismo que gerou as favelas e a marginalização social de um povo que construiu a riqueza desse país. Com o racismo, alimentou-se religiosamente a projeção dos pecados da elite branca, vendendo a ideia que tudo que vem da cultura negra e maligno. Emendou-se a tudo isso a ditadura militar que deu continuidade aos etnocídios indígenas. Enraizadamente nos recôndidos desse país continental os coronéis, os oligarcas e plutocratas completam a vergonhosa história escrita e velada da elite branca que não se permite refletir porque é melhor pra eles que a sociedade continue achando que eles são os “homens de bem”, que são eles que geram os empregos e a riqueza, que são eles que possuem uma moral exemplar para a sociedade e as famílias se inspirarem.
Nem se em cada casa desse país fosse criado um museu contando a história de herois anônimos, líderes que honraram um sentimento verdadeiro de nação, de irmandade e patriotismo…com certeza não haveriam museus suficientes. Menos ainda caberia, se fôssemos contar a história dos omissos, dos coniventes e dos egocêntricos que não se sensibilizam com tudo que estamos vendo de terror e tristeza.
Mais do que nunca… embora virtualmente…. NINGUÉM SOLTA A MÃO DE NINGUÉM. BELA CIAO.

Andre Paz

Graduando em Ciências Humanas - UFMA.

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