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O autoengano de Ciro e do PDT

Nas últimas semanas, o presidenciável Ciro Gomes e o presidente do PDT, Carlos Lupi, deram declarações afirmando que as possibilidades de um segundo turno entre Ciro e Lula nas eleições presidenciais de 2022 estão aumentando. A base para essas afirmações é que, tendo Lula uma vaga praticamente garantida no segundo turno e Bolsonaro cada dia mais perdendo força, Ciro seria o candidato natural de oposição ao PT no segundo turno. A realidade, no entanto, é bem menos fantasiosa. 

Para que essa alternativa se torne viável, são preciso dois fatores: o crescimento de Ciro nas pesquisas e a construção de uma ampla aliança em torno do seu nome. No entanto, ambos parecem cada vez mais improváveis. Nas pesquisas, o que se observa é um crescimento exponencial de Lula, queda acentuada de Bolsonaro e o enfraquecimento do chamado “centro”, como Ciro, Dória, Huck e Mandetta. Analisando mais a fundo os dados das pesquisas, percebe-se que os votos dos eleitores insatisfeitos com Bolsonaro, que sem Lula na disputa se dividiam entre os demais candidatos de oposição, estão se concentrando no ex-presidente. Um dado da pesquisa Datafolha revela que, quanto maior a rejeição a Bolsonaro, maior a votação obtida por Lula. Veja abaixo:  

Para Ciro disputar o segundo turno contra Lula, é preciso a intenção de voto de Bolsonaro cair e a dele crescer. No atual cenário, tanto Bolsonaro quanto Ciro caem e Lula cresce. Embora a manutenção desse cenário possa levar até mesmo a uma vitória de Lula no primeiro turno, a minha aposta é que a situação de Bolsonaro na eleição do ano que vem será semelhante à enfrentada por Crivella em 2020, em que o mesmo se mostrou forte o suficiente para chegar ao segundo turno, mas muito enfraquecido a ponto de ser derrotado por qualquer que fosse o seu adversário no segundo turno, sofrendo uma derrota acachapante como a que sofreu para Eduardo Paes. 

Quanto às alianças, o cenário se mostra igualmente difícil. Bolsonaro tem junto de si uma base de partidos do Centrão que tenderá a lhe apoiar nas próximas eleições, embora as possibilidades de abandonarem o barco também não sejam pequenas. Mesmo que deixem Bolsonaro, por qual motivo esses partidos integrariam a campanha de Ciro, que tem um partido com pouca moeda de troca a oferecer e que está em queda nas intenções de voto? Ciro já afirmou em entrevistas que busca uma aliança com o DEM, que além de ter Mandetta como pré-candidato, no momento passa por uma guerra interna. Uma ala, capitaneada por ACM Neto está cada vez mais próxima de Bolsonaro e insinua inclusive uma candidatura à vice na chapa do atual presidente e outra, liderada pelo ex-presidente da Câmara Rodrigo Maia, deverá sair do partido, a exemplo do prefeito do Rio de Janeiro Eduardo Paes, que migrou do DEM para o PSD. Já é conhecida a proximidade que Lula tem com Eduardo Paes e Kassab, presidente do partido. Além disso, Rodrigo Maia tem feito acenos à Lula, o que somado com a aproximação com o governador de Minas Gerais Alexandre Kalil, pavimentam os caminhos para uma aliança com o PSD. Com o MDB, o PT declarou apoio oficial à candidatura de Baleia Rossi para a presidência da Câmara e Lula tem ótimo trânsito com Eunício Oliveira, Sarney e Renan Calheiros, dirigentes importantes do partido. É bem provável que esses gestos resultem numa aliança eleitoral. Então, quais seriam os aliados de Ciro? O PSB, que tem em Pernambuco seu principal reduto eleitoral e onde o PT também é muito forte e poderia apoiá-lo? O que Ciro e o PDT têm a oferecer aos partidos, à esquerda e à direita? Até mesmo no Ceará, reduto eleitoral de Ciro e de seu partido, a pesquisa feita pelo Atlas Político revelou que Lula lidera por ampla margem nas intenções de voto e Ciro vem em segundo, empatado com Bolsonaro. Além disso, Lula e Camilo, governador do estado pelo PT, têm imagem mais bem avaliada do que Ciro no estado. 

Para piorar a situação, em cenários feitos pela pesquisa Exame/Ideia divulgada em 21 de Maio apontam que, quando apresentado um único nome de “terceira via”, candidatos mais identificados com a centro-direita, como Huck e Mandetta pontuam melhor que Ciro, apontando que os eleitores desse campo estão mais propensos a votar em candidatos com tendências mais conservadora do que progressista. Ciro não é historicamente identificado pelo eleitor como pertencente à esse campo e, apesar das recentes sinalizações do mesmo de se deslocar para esse campo, a estratégia parece ser infrutífera. 

Insistir apenas no discurso “nem um, nem outro” conferiu a Alckmin, que tinha uma enorme aliança em torno de si, a menor votação obtida pelo PSDB em eleições presidenciais desde a redemocratização. Sem nada que indique a sua ida ao segundo turno, esse parece ser o mesmo caminho de Ciro, ainda mais isolado e com menos votos do que aqueles obtidos em 2018. A estratégia tomada para si e seus militantes por enquanto se restringe unicamente ao autoengano. 

Valdeci Rodrigues

Nordestino da Paraíba, vivente no Ceará. Graduando em Ciências Sociais pela UFC(Universidade Federal do Ceará), desenvolve trabalhos na área de Ciência Política e Educação.

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