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Empreendedorismo é mesmo a arte de arriscar-se?

Há muito tempo analiso possibilidades de “empreender” dentro da minha realidade. Vejo reportagens aos montes mostrando pessoas que “arriscaram” e alçaram vôos altíssimos. O dono do SBT é um dos exemplos mais citados quando os “coaching’s” do empreendedorismo” vão fazer suas palestras shows. Ontem dormi “encafifado” com essa afirmação que transformei em pergunta no título desse texto. Pensava comigo, como pode alguém que escolhe quais contas vai pagar e quais precisa deixar para o próximo mês (falo contas, mas muitas vezes são necessidades como tratamento dentário, consulta num médico de estômago ou outras necessidades de sobrevivência) pode ser considerado como alguém que tem medo de arriscar? Como pode alguém que saí de casa de madrugada e volta a noite, muitas vezes em bairros com alto índice de violência (pelo menos o que chega aos relatórios ofíciais, pois a ineficácia do Estado faz as pessoas sequer reportar atos de violência às autoridades responsáveis) ser considerado alguém sem iniciativa?
No início da reportagem do JN de hoje (30.01.2021) eu já pensava comigo, eles só mostram o que querem mostrar, nunca falam a verdade completa. Nunca vão repetir o contrário de como repetem que o agronegócio gera renda para o país e a indústria gera empregos que movimentam o país. Nunca vão mostrar o bem que a agricultura familiar faz para a sociedade brasileira dada o seu peso na equalização entre aqueles que produzem e aqueles que consomem. Nunca vão mostrar o bem que a Reforma Agrária traria pra nação. Nunca vão mostrar que quem se arrisca mesmo é quem está ralando pra ter “garantido” pelo menos o alimento na mesa para sustentar a família.
Mas logo em seguida, na reportagem, falaria da superioridade de empreendedores da terceira idade em relação aos jovens. E podemos dizer que, tratando-se da classe media baixa e de nós pobres, se confirma o que tenho defendido nesse texto, a traz à tona outro argumento que é sobre a importância da aposentadoria. O menor índice de desigualdade sócio econômica está nessa fase da vida, os aposentados. Só depois que a pessoa se aposenta, ela consegue gerenciar melhor seu dinheiro, ela passa a não ter os gastos que o trabalhador tem de vestuário, muitas vezes equipamentos que muitos empregos exigem como celular e internet, entre outros gastos que quem fica mais tempo em casa já não possuem.
Tem também a questão dos filhos já estarem adultos e os gastos da casa são menores. Além de que, o sentimento de “falhar” não impacta tanto quem é aposentado, ou concursado ou possui mais de uma renda ou ainda tenha muito capital acumulado, pois, mesmo “falhando” ou engatinhando, a(s) outra(s) renda(s) vai garantindo o sustento ou mesmo um suporte às despesas mínimas do empreendimento.
Portanto não é só questão de coragem de arriscar, tem mais a ver com condições de arriscar. E os casos mostrados no programa Pequenas Empresas e Grandes Negócios, pode observar que os investimentos iniciais são sempre acima do valor que um trabalhador assalariado recebe em dois, três meses se ele pudesse juntar.
Felizmente existe saída sim para o empreendedorismo a quem não tem alto poder aquisitivo e nem crédito no mercado financeiro. A solução é a economia solidária, o cooperativismo e outras logísticas bem geridas por lideranças comunitárias em parcerias com cientistas e pesquisadores que ousam sair de suas escrivanias para ver e participar da realidade e quando forem teorizar, não a esquecerem-na como infelizmente o cientificismo tem feito e tem muito mais atrapalhado a realidade do que ajudado, pois tal qual uma mídia tendenciosa, máscara a verdade, máscara os reais processos históricos e assim colabora para a alienação tanto dos que acreditam que a “meritocracia” brasileira tem a ver com coragem e disposição de assumir riscos, quanto também aliena aqueles que olham para o trabalhador com sua visão preconceituosa e superficial e acha que os trabalhadores é que são salvos pelo emprego na indústria e no agronegócio e não o contrário.

Andre Paz

Graduando em Ciências Humanas - UFMA.

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